11 de julho de 2026
Nacional

Viradouro, Mangueira e Beija-Flor são destaques do 1º dia do Grupo Especial do Carnaval do Rio


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Com um roteiro de teor antirrascista, a Beija-Flor trouxe à avenida nesta madrugada de sábado (23) estátuas do bandeirante Borba Gato, do escritor Monteiro Lobato e de Pedro Álvares Cabral para serem derrubadas.

Um elemento cênico simula a corda que puxa e faz tombar a estátua de figuras que o enredo classifica como historicamente vinculadas ao racismo e ao colonialismo.

A escritora Conceição Evaristo veio à frente do carro Escrevivência. A quarta alegoria da Beija-Flor traz uma favela feita de livros escritos por homens e mulheres negros, que têm suas imagens estampadas nas pipas erguidas.

Com carros gigantescos e fantasias que remetem à ancestralidade e ao saber africanos, a escola apresenta um enredo que mostra a contribuição de africanos e afrodescendentes à história intelectual do mundo ao mesmo tempo em que denuncia a violência permanente contra pessoas negras.

O primeiro setor de alas trouxe referências à religiosidade do Kemet do Antigo Egito e a intelectuais negro como o psiquiatra e filósofo martinicano Frantz Fanon, a escritora Djamila Ribeiro e o geógrafo Milton Santos.

BAIANAS

No terceiro setor, entre ícones da cultura visual negra como o escultor Aleijadinho e os engenheiros Antônio e André Rebouças, a ala das baianas homenageia a artista plástica paulistana Rosana Paulino.

As 70 baianas, entre 38 e 85 anos, evocam Nanã Buruku, dona dos retalhos do tempo, a orixá mais velha do mundo e guardiã de todas as lembranças do que a Terra já viu. As saias apresentam os patuás com as fotos das próprias baianas.

Aos 83 anos, Ana Nisa, uma das mais velhas da ala, diz que o enredo faz "justiça ao preto". "O preto é muito discriminado. Esse enredo parece que salva a gente um pouquinho", diz a baiana, que pretende sair na velha guarda no próximo desfile, sem o peso das saias e adereços da fantasia.

LACUNA

Após a passagem do carro abre-alas, abriu-se uma lacuna no desfile da Beija-Flor. Depois de conseguir contornar a entrada na Avenida Presidente Vargas após alguns minutos parado, o segundo carro precisou acelerar para acompanhar o passo do restante da escola.

Com referência à diáspora negra, o carro "O Voo Livre do Pensamento Afrosófico" apresenta em seu contorno imagens africanas esculpidas em branco, como o mármore dos gregos.

No meio, surge um pote de barro, e dele uma coruja, o pássaro noturno que simboliza a sabedoria das mais velhas, carregando tranças e teceres de histórias e memórias que formam o saber ancestral.

O carro tem a performance 'Esclarecendo' Ideias: o Epistemicídio Preto, sobre o apagamento da contribuição negra à história das ideias.

MANGUEIRA

Em lugar da clássica figura da bailarina giratória, quem surge bailando é o corpo de Delegado, bailarino negro, esguio, em tons de verde, rosa e prata, que dançava vestido de tecidos brilhantes e peruca à moda da corte europeia.

Os autores do enredo apontam que o corpo retinto de um morador de favela do Rio de Janeiro subverte "os cânones dos discursos hegemônicos de beleza, leveza e dança de qualidade". O carro traz a irmã caçula de Delegado, Tia Suluca, de 94 anos.

A alegoria fecha o desfile da Mangueira, que teve paradinha da bateria e vibração do público nos setores finais da avenida. A escola terminou o desfile à 0h21, após 1 hora e seis minutos de cortejo. Ouviram-se gritos de "É campeã" no setor 13, o último da Marquês de Sapucaí.

SALGUEIRO

Com enredo sobre resistência dos povos negros, o Salgueiro levou para a Sapucaí uma constelação de artistas ligados à luta contra o racismo.

É o caso da atriz Cacau Protásio, que desfilou pela escola depois de alguns anos afastada.

"O desfile foi maravilhoso. Eu voltei para o Salgueiro, que é a minha escola do coração. Já desfilei pelo Salgueiro há anos, quando era mais nova. Agora, sinto que estou voltando para casa feliz da vida."

Para ela, o enredo da escola tem grande importância. "A gente luta todos os dias. A gente está aqui, o mundo é nosso e nós temos direitos", disse a atriz.

A atriz e cantora Lellê, que também desfilou pela escola, faz coro a essa opinião. "Esse enredo me toca de uma forma muito profunda. Resistência é significado do meu trabalho desde sempre. Então faz todo o sentido para mim."

Já Sandra de Sá diz que o enredo é pertinente em razão da luta contra o racismo estrutural.

"É resistência, brother. Está falada e cantado", diz a cantora. "Foi bom demais. Vamos se ligar: É hora da crioleba. O Carnaval foi da crioleba e o mundo está da crioleba."

O refrão do samba-enredo do Salgueiro deste ano cativou o público e fez os foliões vibrarem toda vez que os puxadores da agremiação entoavam os versos, que dizem: "Salgueiro, Salgueiro. Amor que bate no peito da gente. Sabiá me ensinou: sou diferente."

O samba busca celebrar as lutas travadas pelas populações negras. Quem dá vida aos versos são Emerson Dias e Quinho, os intérpretes da escola.

SÃO CLEMENTE

Com desfile assinado por Tiago Martins, a São Clemente fez uma reverência ao ator Paulo Gustavo, morto por complicações da Covid-19 em maio de 2021, aos 42 anos.

A escola preto e amarelo da zona sul do Rio foi a quarta a desfilar esta noite. Alegorias e alas refazem a trajetória do ator da Niterói da infância ao estrelato como um dos principais comediantes do país.

ABRE-ALAS

O carro abre-alas da São Clemente ficou cerca de cinco minutos parado, sem conseguir ultrapassar o primeiro setor da avenida.

Equipes se mobilizaram para fazer o carro andar, e integrantes foram retirados para o chão da avenida. O atraso provocou um buraco entre setores. O público vibrou quando finalmente o carro conseguiu se mover.

"Paraíso da Comédia Brasileira", o abre-alas conta a chegada de Paulo Gustavo no céu. Em vez de solenes querubins e serafins, quem recebe o comediante são escandalosos anjos drag queens que se divertem com piadas de Grande Otelo, Golias e Dercy Gonçalves.

A atriz Heloísa Perissé veio no carro. "Tenho uma saudade enorme dele e até hoje não acredito", disse, pouco antes de entrar na avenida. "A única coisa que eu penso é fazer o meu melhor, como eu vivi com ele com todo o amor."

Déa Lúcia, mãe de Paulo Gustavo, apareceu logo no elemento cenográfico da comissão de frente. Quando o carro entrava na avenida, ele foi manobrado para que ela pudesse saudar os foliões do setor 1 da avenida.

ACADÊMICOS DO TATUAPÉ

A penúltima escola a passar na avenida na madrugada deste sábado (23) foi a Acadêmicos do Tatuapé, com um samba enredo em referência ao Preto Velho, uma entidade da religião de matriz africana representada por um homem negro idoso.

O samba enredo da escola traz o trecho "Saravá, saravá / Preto velho mirongueiro / Saravá / É a luz desse terreiro / Adorê as almas, irmão café / Odara ê, Tatuapé", fazendo uma saudação a entidade.

A Acadêmicos do Tatuapé teve o seu auge em 2017, quando conquistou pela primeira vez o título na elite do Carnaval paulistano, com o samba enredo "Mãe África conta a sua história: do berço sagrado da humanidade à abençoada terra do grande Zimbábwe".

O segundo carro da Tatuapé quebrou ao entrar na avenida. O problema causou tensão entre os integrantes da escola, que pode perder pontos por causa do imprevisto.

VIRADOURO

Já a Viradouro decidiu contar na avenida a história do primeiro Carnaval depois da gripe espanhola, comemorado em 1919. Campeã do último Carnaval, a escola chamou atenção pelos carros alegóricos suntuosos e pelo samba-enredo que também não saiu da boca dos foliões.

No entanto, em meio ao clima de festa, o acidente que tirou a vida da pequena Raquel Antunes da Silva, 11, se fez lembrar. No fim do desfile da Viradouro, carros alegóricos da escola saiam da Marquês de Sapucaí escoltados por funcionários da agremiação. Guardas municipais e policiais militares acompanhavam o trabalho.

A medida foi adotada após a Justiça determinar que todas as escolas de samba façam a escolta de seus carros alegóricos até os barracões, garantido a segurança durante a dispersão. Raquel teve as penas prensadas por um carro alegórico na quarta-feira (20), quando teve início os desfiles da série ouro.