Gotas caem sobre um corpo nu, molhando a pele de um ser misterioso que, ora está num matagal, ora num oceano profundo. A cena, do curta brasileiro "A Gota D'Água", de Mathias Reis, faz referência a crises hídricas e é exibida no 2º Festival Internacional de Ecoperformance.
Com início nesta quinta -feira, com versões online e presenciais, o evento reúne obras que expõem embates entre o homem e a natureza. A mostra, organizada pelas companhias Satyros e Taanteatro, surge em meio a uma efervescência de peças voltadas à temática ambiental, como aponta a agenda teatral paulistana dos últimos meses.
Histórias sobre mudanças climáticas, águas poluídas, oxigênio comprometido, extinção de bichos e riscos à flora conduzem dezenas de montagens e performances.
Peças como "Terremotos", dirigida por Marco Antônio Pâmio, "A Turma da Floresta Viva", de Cristiane Natale e Guilherme Carrasco --as duas em cartaz--, "Chernobyl", de Bruno Perillo, "Altamira 2042", de Gabriela Carneiro da Cunha, "Encantado", de Lia Rodrigues, com três temporadas já encerradas, e "Vozes da Floresta - Chico Mendes Vive", de Lucélia Santos, em cartaz a partir de sexta, são exemplos desse filão teatral que vem crescendo no país.
No Ecoperformance deste ano, que traz 48 filmes de 17 países, o Brasil surge em obras como "Eco(ar) "" Voz em Estado de Derramamento", do Coletivo Membrana, "Ynstalação Cabokètykas: Corredora", de Pedro Olaia, "Sethico", de Wagner Montenegro, e "(In)flama o Coração da América do Sul", de Mari Gemma De La Cruz.
Para a idealizadora do Ecoperformance, a coreógrafa Maura Baiocchi, contudo, a presença do tema nas artes cênicas do país ainda caminha a passos lentos. "Tanto o teatro quanto a dança são bastante centrados em dramas psicológicos. São muito antropocêntricos", diz ela.
Ao mesmo tempo, ela vê o crescimento recente de espetáculos inseridos na temática como uma maneira de estimular a conscientização ecológica do público. "É um assunto para ontem. Não deveríamos limitá-lo a jornais, fóruns políticos, ou palestras de slides cheios de números e gráficos."
É o que faz, por exemplo, "Altamira 2042" ao reproduzir sons da região do rio Xingu, na bacia amazônica, e iluminar o palco com cores predominantes do local. A peça é uma crítica à polêmica instalação da hidrelétrica de Belo Monte e enfoca os povos ribeirinhos e indígenas que vivem nos arredores daquela área.
Contextos brasileiros também aparecem em "Vozes da Floresta - Chico Mendes Vive", com vídeos inéditos do líder seringueiro que dá nome à peça, além de retratos de conflitos agrários da Amazônia.
Não é somente no Brasil que artistas estão olhando com mais ênfase para o assunto.
Longas hollywoodianos recentes como "Não Olhe para Cima", de Adam McKay, filme visto por muitos como uma alegoria sobre o aquecimento global, e "Moonfall - Ameaça Lunar", de Roland Emmerich, diretor alemão conhecido por tramas apocalípticas como "O Dia depois de Amanhã", dialogam com a questão.
Ainda assim, muitos ambientalistas se incomodam com a forma como o tema costuma ser tratado. Prova disso é um manual para "escrever roteiros na era das mudanças climáticas" que a organização Good Energy lançou há poucas semanas, reunindo conselhos de cientistas e artistas sobre como retratar as questões ecológicas em obras de ficção.
"Há um consenso sobre a ciência do clima, mas não sobre as histórias sobre ele. Não há precedentes para isso, o que é emocionante e perturbador", afirma um desses vários textos. "Como ainda há poucas histórias sobre isso nas telas, este é um território totalmente novo, o que significa que podemos moldá-lo juntos."
"Evite estereótipos como o rabugento do clima, o ambientalista ingênuo, ou o cientista nerd", "mostre que um estilo de vida com baixo carbono pode ser sexy" e "lembre-se de que a crise climática não precisa aparecer somente em tramas apocalípticas, mas também de comédia e fantasia" são algumas das dicas que constam no manual.
A última delas, aliás, ecoa uma crítica recorrente dos ambientalistas. Segundo vários deles, retratar crises ecológicas como apocalípticas distancia o público da urgência do assunto e ignora os problemas do mundo de agora.
"Uma história apocalíptica, na qual não há salvação e tudo está perdido desmobiliza as pessoas", afirma Marcio Astrini, que é secretário-executivo da rede civil Observatório do Clima.
Ele diz que cartilhas como a do Good Energy, que propõem "um modelo ideal de obras" ao tocarem num determinado assunto, não limitam a criatividade artística e são relevantes para o avanço da causa ambiental. "Acho isso extremamente importante. Não são regras. São apenas dicas que, inclusive, mostram como o tema pode ser atrativo para os artistas."
Mas há quem discorde da existência de manuais ativistas voltados ao campo artístico, no entanto. É o caso de Marco Antônio Pâmio, diretor de "Terremotos", espetáculo estrelado por Paloma Bernardi e Virgínia Cavendish que narra a história fictícia de três irmãs que vivem num mundo prestes a sofrer assustadoras consequências do aquecimento global.
"Acreditar que uma obra tem o poder de convencer alguém a fazer qualquer coisa é perigoso e arriscado", afirma o diretor, que se inspirou num texto de Mike Bartlett para a montagem em cartaz. "Querer provocar reflexão é saudável, mas impor dogmas, não."
"'Terremotos' é uma peça que tem otimismo, mas também tem uma trajetória extremamente sombria", continua ele. "O pessimismo é, sim, legítimo. A arte não tem obrigação de ser panfletária."