O distanciamento social imposto pela pandemia da Covid-19 impulsionou o regime de teletrabalho nas empresas e já está claro que esta modalidade, após estes últimos dois anos, veio mesmo para ficar. Por conta dos resultados positivos que tem apresentado, como o aumento da produtividade, o home office se consolidou e será mantido por muitas corporações, mesmo com a retomada da vida normal, após o arrefecimento da circulação do novo coronavírus.
Mas, um dos maiores desafios para companhias e funcionários será garantir o chamado "direito à desconexão laboral", ou seja, assegurar o tempo de lazer e descanso, a fim de evitar o que já vem sendo denominado de "tecnoestresse", capaz de provocar nos trabalhadores sintomas de ansiedade, depressão, insônia e irritabilidade. É uma reflexão que o JC traz na edição de hoje, data em que se comemora o Dia do Trabalho.
É evidente que a pandemia pegou a todos de surpresa e, quando o teletrabalho precisou ser rapidamente expandido, as empresas correram para estabelecer regras de forma mais imediata, mas a maioria ainda não conseguiu implementar uma política estruturada para esta modalidade laboral. Já os funcionários se veem diante do dilema de encontrar os limites entre o período de trabalho e de lazer, visto que fazem parte de uma sociedade digitalmente conectada, em que informações relativas à esfera profissional se inserem a todo tempo na vida pessoal, inesperadamente, seja por meio de um alerta de nova mensagem no celular ou de uma mera incursão nas redes sociais.
"Uma regulamentação é necessária, até porque algumas pesquisas têm mostrado que parte dos colaboradores tende a se sentir obrigada a estar à disposição da empresa, por exemplo, para tirar dúvidas a qualquer hora do dia, fora da jornada. São novas relações de trabalho que precisam ser melhor compreendidas", analisa a psicóloga organizacional Núria Priscila Valentini Borro, salientando, ainda, que a diminuição das relações interpessoais também pode comprometer a saúde mental dos indivíduos.
"O regime de teletrabalho tende a diminuir estas interações presenciais e, com isso, especialmente quem já é mais introvertido corre risco de perder habilidades sociais. É preciso buscar equilíbrio", acrescenta ela, que também é mestre em Ciências da Saúde e especialista em Gestão Estratégica.
Para se ter ideia, ainda em 2020, uma pesquisa da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (FGV) já mostrava que 56% dos trabalhadores em home office tinham problemas para conciliar vida pessoal e profissional. É um assunto sobre o qual, certamente, as corporações e o poder público terão de se debruçar, inclusive para evitar o adoecimento de seu quadro funcional por esgotamento mental.
Algumas empresas, aliás, já têm desenvolvido programas de capacitação com diretrizes que visam assegurar este 'desligamento'. "Acredito que, dentro dos próximos dois anos, no máximo, esta questão já estará regularizada", completa a psicóloga.
Visando dar mais segurança jurídica ao teletrabalho, o governo federal editou, em março deste ano, a Medida Provisória 108/2022. Porém, sobre o direito à "desconexão" das atividades laborais, o texto ressaltou apenas a necessidade de "assegurar os repousos legais" aos profissionais. No Congresso, já tramitam alguns projetos de lei, como o PL 3.512/2020, no Senado, e o PL 4.831/20, na Câmara dos Deputados, que pretendem detalhar obrigações e garantias de empregadores e empregados na realização do trabalho remoto.
Já em Bauru, o PL 69/2021, que visa regulamentar o teletrabalho na prefeitura, foi enviado pelo Executivo à Câmara Municipal em outubro do ano passado. O texto de apenas dois artigos, considerado exíguo pelos vereadores, segue em tramitação até hoje na Casa de Leis.