09 de julho de 2026
Geral

Número de mães solo aumenta em Bauru e é o mais elevado dos últimos cinco anos

Guilherme Tavares
| Tempo de leitura: 2 min

O número de mães solo, aquelas que registram os filhos sem o nome do pai, aumentou em Bauru neste ano e já é o maior desde 2018. Os dados são da Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do Estado de São Paulo (Arpen-SP). Nos quatro primeiros meses de 2022 foram 115 casos, o que representa 7,51% frente ao total de nascimentos no período. No ano passado foram 91, ou 5,83% do total, de janeiro a abril. Entre 2018 e 2020 essa marca não havia chegado a 5% (veja quadro). Na opinião de pesquisadoras ouvidas pelo JC, os números representam, majoritariamente, um perfil de mulheres em situações econômica e emocional vulneráveis e que são forçadas a mudar ou interromper planos e trajetórias para criar os filhos sozinhas.

"Esse número já vem crescendo nas últimas décadas e acompanha a evolução da densidade demográfica no País. Observo que ele também aumenta exponencialmente conforme avançam a pobreza, o desemprego, a instabilidade e a violência nas relações", afirma Nilma Renildes da Silva, professora de Psicologia da Unesp em Bauru, doutora em psicologia da educação e supervisora de estágio em psicologia comunitária. Para ela, o perfil de mães solo é composto principalmente por mulheres pretas, pardas e periféricas. Outra preocupação é com o impacto desse fenômeno nas jovens. "Não é incomum virar mãe solo na adolescência, ainda mais quando as meninas não participam de programas de educação sexual. E, depois, poucas são as famílias que acolhem ou acompanham".

Na visão de Jéssica de Cássia Rossi, professora de Antropologia, Comunicação e Sociologia no Unisagrado e doutora em Ciências Sociais, o aumento de mães solo representa um fenômeno multifatorial. "Hoje percebemos que são mulheres muitas vezes em situação econômica mais vulnerável, moram em regiões periféricas onde falta acesso a recursos básicos. As negras configuram a maior parte desse processo. E também é preciso considerar as questões abusivas, pois são mulheres que sofreram algum tipo de violência doméstica ou familiar e optam por criar o filho sozinha", define.

PREJUÍZOS

Ainda segundo Nilma, historicamente a mulher acumula prejuízos muito grandes pela criação dos filhos, ainda mais quando não há um pai com quem dividir as responsabilidades. "Além do corpo sofrer modificações em termos imunidade, cuidados e alimentação, desde a concepção, o problema já está exposto e referendado por todas as instituições sociais. A tendência é a vida da mulher ficar à mercê do filho", explica a pesquisadora, que ainda reforça a questão da interrupção dos estudos quando a gravidez acontece na adolescência.

Para ela, uma mudança nesse cenário começa pela discussão dos papéis de homens e mulheres na sociedade. "A educação sexual deve começar desde a infância. Em casa, precisa ser um assunto de família. A escola também deveria ter programas para discutir o que pode e o que não pode. Sem informação, aumenta o risco de violência sexual contra crianças e adolescentes".