09 de julho de 2026
Articulistas

Bom-dia, avião!

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Esta crônica parece mentira, mas é verdade, nasceu de notícia de jornal. Quer conferir? Vai pro Google. Geraldo nunca andou de avião, mas nem por isso ficou com os pés no chão. Desde pequeno, o coração batia forte e a imaginação voava alto quando qualquer avião riscasse o céu dos seus olhos de menino. Sei que vão dizer que nenhuma novidade há nisso, toda criança vive a sonhar. Besteira. Como o Geraldo não. A sua história cuidará de provar.

O menino envelheceu sonhando seu único sonho, que sonhar é coisa de conseguir, nunca de desistir. Com 66 anos, pobre, morando num pequeno sítio, em Porto Velho, o velho Geraldo continuava menino voando alto. Queria porque queria, custasse o que custasse, ele haveria de ter o seu avião, ali, estacionado na grama do quintal, ao lado do quarto de dormir. Abriria a janela todos os dias, bom-dia meu avião! Mas não um qualquer, tinha que ser o luxuoso jatinho executivo Phenom 100, construído pela Embraer. Coisa de amor à primeira vista, que nasceu com o dedo virando página de revista. A fotografia do jatinho prata riscando o azul nunca mais lhe sairia da memória. Pra encurtar o caso, e não alongar a história, vou logo dizendo que o sonho maluco do velho Geraldo virou realidade.

Chamou o cunhado, que, mais do que pedreiro, era louco como ele, e os dois resolveram construir o avião. Tijolo, ferro, tubos metálicos, usariam coisas assim. Somando o conhecimento dos dois, nenhum de engenharia, nenhum de arquitetura, um pouquinho de construção civil. Mas o sonho enfeitiçou o reboco e o milagre aconteceu. Dois anos, os dois no quintal pelejando, discutindo, copiando todos os detalhes da revista e dos vídeos.

Quem hoje vê não acredita, tamanha é a semelhança com o jatinho de verdade. Por dentro e por fora, tudo igualzinho ao modelo original: os motores na posição certa, o painel interior de comando com as telas Garmin Prodigy Touch, a pintura metálica do fabricante e o clássico manche em gaivota. Cara de um, asa do outro. Qualquer focinho pode ir lá conferir. A notícia do avião pousado na grama do quintal voou alto. Rapidinho, o velho Geraldo virou manchete nacional e internacional. Quando ele vê gente diferente na porteira, corre vestir a farda azul de comandante com gravata elegante e boné. Feliz da vida, recebe todos os jornalistas, com braços amigos, nunca imaginou que seria tão importante. Bem humorado, proseia muito nas entrevistas e conta sempre a mesma história, que outras - ele até tenta - os jornalistas não querem escutar.

Acreditem se quiser, a Embraer, isso mesmo, a Empresa Brasileira de Aeronáutica S/A, voou até o sítio do Geraldo. Técnicos curiosos queriam conhecer o incrível avião. Levaram camiseta e boné com a marca da empresa. Fotografaram, filmaram, entrevistaram e o convidaram a visitar a famosa fábrica de aviões. Mais um sonho a ser realizado.

Ninguém vive sem sonhar. A vida sempre foi mais fantasia do que realidade. Não sairá do ninho quem medo tiver de voar. Mas sonhar é perigoso. Já quebrou as pernas de quem calculou errado a lonjura do caminho. Já esvaziou do bolso as economias de quem gastou o que não podia. Já embebedou a vida de quem pensou que poderia ter Maria. O problema é sempre de medida. Tem gente besta que acha que pode tudo. Tem gente besta que pode tudo, mas não acha. Se a conta do lápis não for bem feita, o sonho vira desgraça, baita pesadelo na vida do infeliz.

O menino Geraldo ganhou do velho Geraldo a melhor lição: sonhar alto sim, mas com os pés no chão. O avião do Geraldo, que faz tanto sucesso, não tem ronco no motor, nem asas verdadeiras de voar. Mas era o avião possível. Tá lá na grama do quintal. Boa-noite na hora de dormir, bom-dia na hora de acordar!

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.