10 de julho de 2026
Política

Crianças repetem merenda até 5 vezes ao dia e o consumo dispara

Tânia Morbi
| Tempo de leitura: 3 min

A crise econômica do país, que tem elevado muito os preços dos produtos da cesta básica, pode ser a explicação para o aumento significativo do consumo de alimentos da merenda escolar distribuída na rede municipal de ensino. Segundo dados da Secretaria de Educação de Bauru, o estoque que até o final de 2021 era suficiente para atender toda a rede por até três meses, atualmente tem sido suficiente para apenas 30 dias, enquanto crianças chegam a repetir a merenda servida nas escolas públicas municipais de Bauru por até cinco vezes, no mesmo dia.

O fato é interpretado pela vereadora Chiara Ranieri (União Brasil) como uma compensação à falta de alimentos que essas crianças têm em suas casas. Por isso, a parlamentar, que é presidente da Comissão de Educação e Assistência Social da Câmara, convocou uma audiência pública para buscar alternativas para o problema da fome enfrentado pelas famílias de Bauru.

A alteração no consumo de alimentos foi confirmada pelo Departamento de Alimentação Escolar da Secretaria de Educação e já levou à implantação de algumas medidas, como o reforço na oferta de alimentos, com a inclusão de uma entrada (leite, bolacha, pães e frutas), o que eleva para três as refeições diárias oferecidas aos alunos de período integral.

E também estão sendo oferecidos cardápios mais completos às segundas e sextas-feiras, considerando a possibilidade de que as crianças não estejam se alimentado da forma adequada aos finais de semana, o que explicaria a grande procura pela merenda nestes dias.

ALARMANTES

Os dados, considerados alarmantes pela vereadora Chiara Ranieri, levaram a parlamentar a convocar uma audiência pública para o dia 22 de junho, quando devem ser debatidas outras formas de contribuir com as famílias carentes de Bauru atingidas pela fome.

A ideia é encontrar e definir ações diretas do governo municipal que possam fazer frente ao problema.

De acordo com um documento intitulado 'Combate à fome: Não dá para esperar', encaminhado à secretária de Educação, Maria do Carmo Kobayashi, pelo Departamento de Alimentação Escolar, são atendidos cerca de 65 mil alunos por dia nas redes municipal e estadual de ensino de Bauru, incluindo creches conveniadas e ensino especial. São atendidos alunos do berçário, a partir de 4 meses, até a Educação de Jovens e Adultos (Ceja). Até o mês de maio de 2022, foram servidas 4.319.820 refeições nas unidades escolares.

Segundo o órgão, o aumento na procura pelos alimentos começou a ser notado desde quando retornaram as aulas presenciais, em novembro de 2021. "Os caminhões que transportam os gêneros alimentícios saem do almoxarifado carregados de alimentos para serem entregues nas unidades escolares, inclusive estão saindo caminhões extras, tamanha a demanda de alimentos", diz o documento.

600 FORA DA ESCOLA

Para Chiara Ranieri, é preciso mobilizar esforços locais para atender as crianças, por meio de projetos que sejam extensivos as suas famílias, já que nas esferas estadual e federal não surgiram, segundo ela, novos programas voltados para esta finalidade. "Temos que debater o reforço da merenda dentro da escola, mas também a insegurança alimentar, temos que tratar as duas coisas juntas. Temos que pensar em alguma coisa que garanta que aos finais de semana essas crianças terão uma qualidade nutricional", ponderou.

A proposta que vem sendo estudada pela vereadora é a de implantação de um programa que não seja restrito à Educação, mas sim um programa de governo permanente com o propósito de garantir a nutrição das crianças. Inclusive considerando as que estão fora da escola por falta de vagas, que atualmente de acordo com Chiara, são mais de 600. "Se tem uma criança comendo na escola, em casa tem outras que comem o que tem. Temos que institucionalizar o reforço à merenda. As crianças vão entrar em férias e o que vai acontecer com elas? A merenda de Bauru é muito boa, mas como merenda, e não como única refeição que a criança faça no dia. Não podemos ver as crianças passando fome e não fazer nada", concluiu.