08 de julho de 2026
Ser

A velhice vai para 'a vitrine'

Constança Tatsch
| Tempo de leitura: 4 min

Amigas há 50 anos, Gilda, de 80, Sonia, de 84, e Helena, de 93, sempre se encontraram em mesas de bar para conversar e praticar a "filosofia de boteco". Hoje, qualquer pessoa pode se sentar com elas para ouvir suas piadas, dicas culturais, orientações sobre saúde e reflexões sobre a vida, basta seguir a @avosdarazão (Avós da Razão). Elas já contam com mais de 193 mil seguidores no Instagram, além de 86 mil inscritos no canal, que serve para responder perguntas.

As Avós da Razão fazem parte de um grupo de idosos que se tornaram influenciadores digitais, ou melhor, que vêm fazendo sucesso na internet. Cada uma (a maioria é mulher) no seu estilo, seja para fazer piadas com os netos, ensinar receitas com a irmã, mostrar os looks mais arrojados ou tocar piano para uma plateia virtual.

"O velho está vivendo muito e ele precisa encontrar um caminho para essa velhice longa, para ele não se sentir à parte da sociedade, para não se sentir menosprezado. Dos 65 aos 90, são muitos anos que a pessoa precisa preencher de alguma maneira", diz Sonia. Em um dos vídeos, ela e amigas falam em colocar o velho na vitrine.

Para especialistas, esse tipo de atividade só traz benefícios aos idosos. A geriatra Maísa Kairalla, coordenadora do ambulatório de transição de cuidados da Geriatria e Gerontologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), considera que as redes podem criar um mundo novo para o idoso. "Tem vários aspectos superpositivos. O que aconteceu com o cérebro de muitos idosos na pandemia é estarrecedor. Muito prejuízo cognitivo, e por isso hoje temos que ser mais inteligentes e usar a tecnologia para isso. O cérebro tem capacidade plástica, tudo que se estimula melhora. Com esses vídeos, a pessoa estimula o cérebro, reforça o vínculo social, com quem grava (o neto, um filho, um amigo), com os seguidores, e se sente útil. É um novo motivo", diz.

Sonia concorda que, especialmente na pandemia, o idoso que não conseguiu lidar com a tecnologia ficou muito isolado. Mesmo ela, que foi a primeira da família a ter um celular, diz que correu atrás e se aprimorou nesse período. "O velho parece que tem vergonha de ser velho. Então, ele sempre tira o corpo fora, ele diz: "Isso não é mais para mim, na minha idade não aprendo". É um comodismo muito grande e que faz com que o velho fique à margem. Por isso, quando a pessoa comenta com a gente que mudou a maneira de pensar, mudou de vida, se remoçou, buscou novos interesses, isso é o principal."

Diminuir o ócio, criar novas relações, interagir e se manter ativo são também formas de combater a depressão na velhice. Nalva Nobrega, de 94 anos, toca piano desde criança e agora posta vídeos tocando boleros e músicas antigas no Instagram. Para ela, compartilhar a sua música foi uma forma de se manter plena e ativa. "É uma expansão da arte e dos sentimentos. Isso me alimenta e me dá mais vontade de viver. Os comentários agradam ao meu espírito, não por vaidade, mas anima o espírito quando alguém me ouve, me elogia."

Se a participação ativa nas redes sociais faz bem aos idosos influenciadores, também tem potencial para fazer o mesmo pela sociedade. Primeiro, combatendo o preconceito contra os mais velhos, como explica a antropóloga e professora da UFRJ Mirian Goldenberg. "A velhice pode ser, e é, um momento de conquistas, de alegria, de descobertas, de humor também. As pessoas enxergam a velhice só de um lado, da perda, da falta, da doença, da feiura, e esses influenciadores mostram que não é só isso."

"Não importa se estão ganhando dinheiro, se tem 500 ou 3 milhões de seguidores, mas essas pessoas saíram da invisibilidade, da inutilidade, da falta de escuta, como é para a maioria dos velhos", enfatiza Goldenberg. Para ela é também a oportunidade para que os mais jovens abram os olhos para quem está ao lado deles, os idosos das suas próprias famílias.

"Se você está interessado, pode enxergar o que a velhice é e não, o que temos medo que seja. Talvez esses influenciadores consigam fazer isso: com que as pessoas vejam e escutem quem está em suas casas, em vez de dar ordens, tirar autonomia ou se esquecer deles. Eles mostram o que sabem fazer e como podem ser úteis, como a velha que sabe cozinhar ou a que toca piano lindamente. O segredo é transformar isso numa prática dentro das próprias casas. E os velhos se sentirem ouvidos, reconhecidos, respeitados, e não esquecidos, abandonados."

Os idosos influenciadores encantam porque trazem algo não tão comum nas redes sociais, sempre fartas de mulheres com corpos perfeitos de biquíni ou dancinhas ensaiadas e repetidas: a autenticidade. Como diz a antropóloga, são espaços em que não existe a frequente "angustia da comparação e do fracasso" para quem lhes assiste.

Assim como as alegrias e os talentos, eles relatam suas dores e dificuldades, e não temem usar algum palavrão para reclamar de um ou outro obstáculo da velhice - mas que não os impede de sair da cristaleira para as telas.