Quando a pandemia começou e afetou drasticamente a rotina das pessoas, impedindo o convívio social, sentimentos como o medo da morte, a insegurança e a ansiedade fizeram com que muita gente corresse em busca de terapia. Ocorre que a retomada presencial das atividades também trouxe fortes impactos à saúde mental. É o que tem notado o Núcleo Técnico de Atenção Psicossocial (NTAPS) da Unesp de Bauru.
Criado para dar suporte aos universitários, o serviço viu a demanda de atendimentos multiplicar durante a pandemia e também após o retorno presencial das aulas na universidade. Em razão da maior procura, o núcleo foi até ampliado para atender não só alunos de Bauru, mas também de outros campi da Unesp pelo Estado.
'PESADELO'
São estudantes que têm convivido, geralmente, com ansiedade, pânico e depressão. É o caso de uma aluna de 21 anos, do terceiro ano de um curso de Humanas na Unesp de Bauru, que pediu para não ser identificada como forma de evitar constrangimentos. Quando a pandemia começou, ela ingressava para a vida universitária e conta que as aulas remotas se tornaram um "pesadelo" com o tempo.
Com o anúncio do retorno presencial, que ocorreu em março, a expectativa era de que tudo melhorasse, mas não foi bem assim. "Academicamente, o retorno presencial tem sido muito bom, melhor do que o remoto. Mas, em questões mentais e psicológicas, ele tem sido muito difícil e desgastante. Nunca chorei tanto quanto esses tempos. É muita pressão e tudo acontecendo de uma só vez", acrescenta a universitária.
Ela relata conviver desde os 14 anos com episódios de depressão, mas afirma que nunca teve uma crise tão extensa como a atual. "Desde a notícia do retorno do presencial, parece que piorou minha falta de energia. Sinto um vazio, uma solidão e uma tristeza que não passam, e minha ansiedade piorou muito. Tive mais crises de ansiedade na volta presencial do que ao longo da pandemia. Tanto que a minha psiquiatra triplicou a medicação", desabafa.
ANSIEDADE SOCIAL
O relato da estudante se assemelha a muitos outros recebidos pelo NTAPS. A psicóloga Maria Laura Albano, que atua no serviço, confirma que muitos universitários têm procurado ajuda diante das dificuldades em lidar com o retorno presencial.
"Observamos que há uma ansiedade social. Os estudantes estão com dificuldades que vão desde apresentar trabalhos até lidar com amigos além das telas. Para alguns, o ensino presencial facilitou a formação de vínculos, mas, para outros, não", comenta.
Ela tem percebido ainda uma lacuna em relação à ocupação social dos ambientes, já que muitos estudantes de fora de Bauru, em razão das aulas online, não conheciam sequer o município ou o espaço físico da universidade, o que tornou mais complexa e demorada a sensação de pertencimento.
"Muitos estudantes têm trabalhado para se manter. E aí falta tempo para dedicar ao curso, o que gera certo desânimo neles também", explica a profissional. A psicóloga observa ainda que os efeitos do retorno presencial não são exclusivos das universidades. "Todo mundo está mais ansioso. O efeito tem sido geral, em todos os setores, tanto que houve aumento grande dos casos de síndrome de Burnout (esgotamento profissional)", finaliza a psicóloga.
SERVIÇO
O Núcleo Técnico de Atenção Psicossocial pode ser contatado por meio de sua página no Facebook "NTAPS" ou pelo e-mail ntaps.fc@unesp.br.