08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

A verdade amordaçada

Benedito J. A. Falcão
| Tempo de leitura: 2 min

Qualquer pessoa esclarecida sabe que uma investigação não é uma sentença condenatória. Ela é a possibilidade de trazer à tona a verdade das coisas. E, como diz o ditado: "quem não deve não teme". E se o ditado está correto, o revés disso faz presumir que o "engavetamento" de qualquer investigação, por si só, apresenta indícios de que algo errado está acontecendo.

Lamentavelmente, estamos vivendo em nosso país um período em que varrer a sujeira para debaixo do tapete virou a praxe. Na esfera federal, o governo dá o tom da "chicana". Apesar de usar como lema um versículo bíblico ("conhecereis a verdade e a verdade vos libertará"), sua prática é bem outra: troca superintendências na Polícia Federal, nomeia um "Engavetador Geral da República" fora da lista do tríplice do MP, utiliza a PGR na defesa de casos pessoais, impõe sigilo sobre seus atos para que não sejam investigados e quando nada disso é suficiente, concede graça a aliados.

Repetindo a nefasta cantilena, na esfera municipal, a Câmara de Bauru acaba de rejeitar (13/06/2022) o relatório da Comissão Especial de Inquérito (CEI) que apurou as circunstâncias e trâmites das desapropriações de 16 imóveis, ocorridas durante o ano de 2021, a serem utilizadas pela Secretaria Municipal da Educação, que totalizaram uma despesa de cerca de R$ 34,8 milhões para os cofres públicos.

Nove vereadores votaram pelo "engavetamento" da investigação. A saber: Sergio Brum (PDT), Miltinho Sardin (PTB), Marcelo Afonso (Patriota), Mané Losila (MDB), Beto Móveis (Cidadania), Pastor Edson (PRB), Pastor Bira (Podemos), Júlio Cesar (PP) e Júnior Rodrigues (PSD). Nessa sopa de letrinhas de pouco significado, os nobres edis citados acharam que não é viável apurar as irregularidades da administração da Prefeita Suellen Rosim (eleita pelo Patriota e atualmente no PSC)...

Aliás, acharam, mais... Acharam que o povo não pode, nem deve saber o que é feito com o dinheiro público fruto de nossos impostos...

Esse tipo de atitude (rejeição do relatório das CEI), apesar de revestido das formalidades legais, contradiz e fere de morte os princípios da transparência e da publicidade dos atos públicos de gestão. E assim, lentamente, agoniza a clareza da verdade nos porões escuros dos poderes...

Ainda ouço os brados inflamados e slogans que há bem pouco tempo varreram o país, clamando pela moralidade e ética "dos outros"... Porém, quando esses princípios batem à porta dos "patriotas e moralistas", o que vejo são os fatos silenciados pela mordaça da omissão ou calados, definitivamente, pelo torniquete dos conchavos... E é aí, que cada um, posto à prova, mostra sua face real, visto que a omissão jamais será aliada da verdade.