O número de moradores em condição de pobreza ou extrema pobreza que se enquadram nos critérios para receber o Auxílio Brasil aumentou consideravelmente neste ano em Bauru. Em apenas cinco meses, quase 2,5 mil novas famílias da cidade passaram a ter direito a receber recursos do programa social, que garante um valor mínimo de R$ 400,00 mensais para manutenção de condições básicas de sobrevivência.
Conforme dados da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), em dezembro de 2021, 10.575 beneficiários recebiam o auxílio em Bauru. Em maio de 2022, este número saltou para 13.005, uma alta de 23%. Todos os contemplados pertencem a famílias em situação de extrema pobreza, que têm renda mensal per capita de até R$ 105,00, ou de pobreza, com renda per capita por mês de R$ 105,01 a R$ 210,00.
As estatísticas alertam para o recrudescimento da vulnerabilidade dos bauruenses, em meio à crise econômica do País, marcada por níveis de desemprego ainda altos e escalada da inflação, que tem corroído o poder de compra dos cidadãos. E este aumento de moradores dependentes do Auxílio Brasil na cidade se alinha ao crescimento de famílias inscritas no Cadastro Único (CadÚnico) da Sebes, que oferece mais de 20 programas e benefícios assistenciais à população de baixa renda.
Para se ter ideia, em abril de 2021, a secretaria contabilizava 35.312 famílias vulneráveis incluídas neste sistema. O número, em abril de 2022, chegou a 38.821, ou seja, 3,5 mil a mais em relação a um ano atrás.
EXCLUÍDOS
Por meio de nota, a Sebes informou não ter a contabilização do número de pessoas em condições de ter acesso ao Auxílio Brasil, mas que não recebem o recurso, visto que a concessão do benefício é realizada pelo Ministério da Cidadania, de modo automatizado. Procurada pela reportagem, a pasta federal não se manifestou até o fechamento desta edição.
A faxineira e auxiliar de serviços gerais Edna Maria Jacinto Guerra, 57 anos, afirma ser uma das moradoras de Bauru excluídas do programa social desde novembro do ano passado, quando o governo federal mudou o nome do Bolsa Família para Auxílio Brasil. Em sua casa, ela vive com a filha de 33 anos e o neto, de 18, que dependem de 'bicos' e ajuda de grupos voluntários para sobreviver.
"Não tenho renda alguma. Sou doente, epilética, diabética, tenho pedra nos rins e pressão alta. Minha filha cuida de mim, então, não tem condições de buscar um emprego fixo. Ela faz faxina para fora quando estou melhor, mas, no geral, a gente depende de doação de cesta básica para não passar fome. Estou tentando, desde o final do ano passado, desbloquear o cartão desse Auxílio Brasil, mas não consigo de jeito nenhum", lamenta.
COMIDA NO PRATO
A diarista Tatiana Cristina Soares, 48 anos, também nutre a expectativa de ser contemplada pelo benefício. No entanto, já foi informada que sua renda familiar ultrapassa os critérios exigidos. Ainda assim, tem comida no prato diariamente somente por conta da doação de cesta básica e legumes por parte da Casa da Sopa.
Ela mora com a mãe, que recebe um salário mínimo. Com as faxinas, obtém mais R$ 550,00, em média, por mês. A filha de 26 anos, mãe de duas meninas (uma de 8 e outra de 4 anos), faz tranças. Juntas, dão um jeito de levar a vida, sendo que os custos com gás, água e energia elétrica estão entre as principais preocupações.
Com os filhos (ela também tem um rapaz de 30 anos) e as netas, Tatiana veio para Bauru depois que seu companheiro morreu, em Lins, onde a família vivia. Na época, além do luto, a situação financeira estava tão crítica que a diarista fazia apenas uma refeição por dia para garantir que todos se alimentassem. A situação melhorou quando ela conseguiu o Auxílio Emergencial. Agora, o medo voltou a rondar a casa.