Através da maravilha da maternidade, numa manhã chuvosa de janeiro, depois de nove meses de gestação, a senhora me trouxe ao mundo. Agraciado com o nome de Carlos, era um garoto franzino, tinha medo de tudo, vivia de chupeta na boca, chorava por qualquer coisa e não deixava ninguém dormir à noite.
Como toda mãe carinhosa e dedicada, foi aos poucos transmitindo segurança àquele ser indefeso, que vivia à sua volta em busca de colo. O drama maior foi quando iniciei meus primeiros passinhos, no sentido de caminhar sozinho. Inseguro e com medo de cair, sempre buscava se apoiar em alguma coisa.
Quando o pediatra prescreveu sete aplicações de penicilina, ao ser diagnosticado com início de pneumonia, foi uma batalha a ser vencida. No seu colo, a caminho da farmácia, sem saber o que me esperava, ia todo contente. Mas quando entrava na farmácia, percebendo que iria tomar injeções, desandava a chorar.
Ao completar sete anos, como toda criança, fui matriculado na escola. No primeiro dia de aula, por ficar sozinho na sala, rodeado de pessoas estranhas, foi um dilema para a senhora em deixar-me chorando. Garoto apegado à mãe, não havia argumentos que pudessem me acalmar e convencer-me a permanecer na sala.
Aos poucos, com toda paciência do mundo, a professora foi me consolando e a senhora pode finalmente voltar para casa. A escola não era muito longe, mas por ter que atravessar uma rua movimentada, obrigava à senhora acompanhar-me diariamente. Até o dia, em que colocaram um guarda de trânsito em um dos cruzamentos.
Sempre disposta em me ajudar, diante de todas as dificuldades, inclusive escolares, a senhora tinha toda paciência do mundo em declamar a tabuada comigo, ajudando-me a decorar os lendários - Duas vezes dois = quatro. Duas vezes três = seis. Duas vezes quatro = oito. Foi deste modo a vida inteira, como um anjo da guarda de plantão.
À senhora ensinou-me a andar com segurança, a segurar os talheres na hora das refeições, a respeitar os mais velhos, a ser educado com as pessoas, a dizer sempre obrigado, a ser honesto em todos os sentidos, a partilhar o lanche com o colega carente e a pensar nos prós e contra, diante de uma decisão. Minha professora da vida.
Uma vez os filhos casados, com a chegada dos bebês não tivemos outra alternativa, a não ser pedir para a senhora ficar com seus netos. Avó coruja, não poderia ter outra atitude, a não ser aceitar o desafio de ser mãe novamente. Toda aquela rotina de dar banho, trocar a fralda, preparar a mamadeira, consolar do choro, acalentar para dormir, a senhora reviveu.
A vida toda a senhora me ensinou, ajudou, protegeu, advertiu, consolou, orientou e quando foi preciso, puxou as minhas orelhas no sentido de corrigir-me, para evitar que houvesse um desvio de rota. Apenas de uma coisa a senhora não me preveniu - Que um dia eu teria que aprender a conviver com sua ausência, diante da sua partida.
Talvez para me poupar e não me deixar triste antes da hora, essa lição de vida, minha mãe Anna, a senhora não me ensinou.