09 de julho de 2026
Articulistas

A gente ama odiar

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Depois de milênios de salivação religiosa pregando que, fora do amor, não existe salvação, chego à conclusão de que, nesse jogo do bem contra o mal, o ódio tá ganhando de goleada. O capeta, puta artilheiro, marca um gol atrás do outro. Mae West, famosa atriz americana dos anos 20, disse frase que vai me ajudar a dizer o que não estou conseguindo: "Quando eu sou boa, eu sou ótima. Mas, quando eu sou má, sou melhor ainda." É isso. A gente é muito melhor na porrada do que no carinho.

Quando eu defendi essa tese nas orelhas do Pachecão, tinha certeza de que ele me aplaudiria. Ele é o nosso guru, o nosso filósofo etílico no Barão. Explicado o Pachecão, falta explicar "O Barão". É o simpático boteco que tá bombando e nos acolhe todas as noites. Quanto mais o Pachecão bebe, mais interessante fica a filosofia alcoolizada. Cai do cavalo e do copo também. Ele me ouviu, fez cara de quem bebeu e não gostou, cuspiu cachaça e depois, me fuzilou: "Professor, toma mais uma, o senhor tá precisando. Vai ajudar a pensar melhor. Separar o bem do mal ou o amor do ódio é coisa que sua inteligência não devia fazer. São inseparáveis: corda e caçamba, unha e carne, bunda e calças, irmãos siameses. Quer ver? As pessoas amam odiar o Lula; outras amam odiar o Bolsonaro. Mas todas odeiam amando. Entendeu? Outro exemplo? O cara ama a esposa porque ela é gostosona. Afinal, poucos têm sorte de ter um mulherão assim em casa. Ele ama essa sorte, mas também odeia esse azar. Ter uma mulher boazuda é muito bom, mas é péssimo. Atrai muito gavião bicudo sempre com as piores intenções. Isso vale também para as mulheres que têm marido gostosão. O perigo começa com as próprias amigas. Agora, se a mulher ou o marido forem feiosos, dá pra dormir mais tranquilo, mas com um olho só. Nunca se sabe, né?

Aprenda, professor, o ódio e o amor sempre estiveram de mãos dadas. A coisa começa na infância com a nossa própria mãe. Quanto amor quando ela nos beijava, mas quanto ódio na chinelada que ela dava. Marido e mulher, outro exemplo. O cara ama a mulherzinha quando, na hora do futebol na tevê, ela vem com um beijinho e deixa, no colo dele, uma panela de pipoca. Mas odeia quando a bruxa levanta da cama com o pé esquerdo. Parece saci, não tem outro pé? Aí ela cospe ódio em cima do coitado e chega a pensar em masculicídio. Melhor comprar rapidinho passagem pra Ucrânia! E assim se amando e se odiando, marido e mulher vão vivendo até que a morte os una! Amei aprender tudo isso com o Pachecão, mas odiei o jeito que ele me tratou. Não sou tão burro quanto ele pensa. Era tarde, a conversa tinha se alongado demais. Saritinha, estaria irritada? Que nada! Me recebeu com o beijinho de sempre. Santa mulherzinha!

Por que, Deus meu, fui abrir a merda dessa geladeira? Derrubei a travessa de arroz-doce que se espatifou escandalosamente. A cozinha virou um oceano leitoso e escorregadio. Tinha arroz e leite embaixo do fogão, da geladeira, da mesa, do armário, escorrendo das paredes e pingando do teto. As cadeiras ameaçavam boiar. Eu era um merda, um infeliz que nem geladeira sabia abrir. Um desastrado, tudo culpa da gorda da minha mãe, aquela fofoqueira desgraçada, que fez de mim um imprestável! Saritinha, quando batia, machucava. Peguei a vassoura, o balde, depois, o travesseiro. O sofá, velho companheiro, me esperava, pouco se lixando para o meu ciático!

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.