09 de julho de 2026
Articulistas

Mulheres de casas violadas

Alexandre Benegas
| Tempo de leitura: 3 min

Hospital da Mulher Heloneida Studart. São João do Meriti, Rio de Janeiro. Sala cirúrgica. De um lado, médicos e enfermeiros. Do outro, ele, o anestesista. Aproveitando o procedimento do lençol, normalmente estendido na vertical em procedimentos para isolar a cabeça da paciente do resto do corpo, ele se aproveita da vulnerabilidade dela. Ele, sim, exatamente ele, que exagera na quantidade de sedativos, deixando as gestantes inconscientes. Acusado de estuprar as mulheres, o anestesista, investigado por mais cinco possíveis atos de estupro nas unidades em que trabalhou, age mesmo com a sala cheia de profissionais de saúde. Dopadas, a medicação impede que elas ofereçam resistência. Por isso, a conduta se enquadrar em estupro de vulnerável, e não no estupro comum. De acordo com a Polícia Civil, a quem as enfermeiras entregaram a gravação, o abuso praticado atinge nova face do horror. Ele, parte de um parto perto da parturiente.

Que determinados fatos provocam ampla comoção nas redes sociais, todos sabemos. As acusações contra o anestesista exemplificam bem isso. Diversas entidades, movimentos, ativistas e pesquisadoras se manifestaram, repudiando e alertando para a cultura de estupro. Para a advogada criminal e dos direitos das mulheres, Maira Pinheiro, o caso do anestesista não é nem um pouco surpreendente. "É um problema endêmico nas profissões da área da saúde, porque em todas as situações em que homens têm acesso ao corpo das mulheres isso vai acontecer."

Mais que uma violência obstetrícia, trata-se do que é ensinado aos homens. Pode ser o professor, o psicanalista. O patriarcado os ensina a gostar da ausência de consentimento. Lamentável também serem as mulheres, e não homens, que denunciam e salvam as vítimas. É a mesma lógica também de certos líderes: poder, isso mesmo: o poder, estar no controle. O poder como gatilho à sexualidade. Por isso que a formação ética de qualquer profissional homem que acessa mulheres a portas fechadas e em posição vulnerável, precisa passar pela prevenção da violência sexual. O caso do anestesista não é único. A cada 10 minutos um estupro acontece no Brasil. Setenta por cento dos casos envolvem crianças ou vulneráveis. Que o caso repulsivo do anestesista estuprador nos sirva de alerta!

Pra quem ainda busca prova de que vivemos numa cultura do estupro: ele, que violou uma mulher após uma cesariana, ganhou milhares de seguidores no Instagram. São mais de 15 mil! Todos acompanhando a rotina de trabalho de alguém que chocou a nossa sensibilidade bem comportada. Como explicar isso? O aumento no número de seguidores revela o assustador da sociedade em que vivemos: sua faceta pervertida, com muitos indivíduos identificados com a prática do crime, com gente imantada com o estarrecedor. Assim, não é somente na polícia ou na política que esses criminosos se escondem com álibis, também na medicina e, certamente, qualquer outra atividade. Para o psicanalista Arnaldo Chuster entre os motivos que levam uma pessoa a estudar medicina, um deles é a possibilidade de cometer um crime, tendo como álibi a execução de um serviço médico.

Pela mídia, vi enfermeiras se revoltarem com o fato. Choravam dentro de um hospital. Não que fossem alérgicas ao ambiente. Imagina. Uma enfermeira alérgica a hospital seria como um padeiro alérgico à farinha, um sapateiro alérgico à cola, uma escritora alérgica a palavras. Sendo pai e professor, professo minha alergia ao nome Giovanni Quintella Bezerra. Por ser impróprio, por saber do que ele foi capaz de anestesiar. Por saber que embora exista esparadrapo, ele conseguiu nos machucar.

 O autor é professor de Língua Portuguesa.