São Paulo - O mundo está ficando abarrotado de produtos que as pessoas não querem ou não têm dinheiro para comprar. Após dois anos precisando lidar com o desabastecimento causado pela pandemia, companhias agora enfrentam outro problema: excesso de estoque.
O trauma da Covid - que desorganizou as cadeias de suprimento globais -, somado à expectativa de aumento nas vendas após a reabertura econômica, fez empresas correrem para acumular mercadorias. No entanto, o padrão de consumo mudou e, diante da escalada da inflação, a alta demanda simplesmente não se concretizou.
No Brasil, os níveis de estoque não fogem muito do esperado. Já em países que sofreram mais fortemente com o caos logístico, o cenário é outro. Dados da FactSet compilados pelo jornal japonês Nikkei mostram que os valores de produtos estocados no mundo atingiram um nível nunca antes visto.
Segundo o levantamento, o estoque de 2.349 companhias globais de manufatura chegou a um valor recorde de US$ 1,87 trilhão (R$ 10 trilhões) no fim de março, uma diferença de US$ 97 bilhões (R$ 5,2 trilhões) em relação ao trimestre anterior. Esse seria o patamar mais alto dos últimos dez anos, que é quando os dados começaram a ser disponibilizados.
Outro levantamento, feito pela Bloomberg, mostra que algumas das maiores varejistas dos EUA - como Walmart, Home Depot e Target - têm quase US$ 45 bilhões (R$ 243 bilhões) em produtos em excesso. O valor representa um aumento de 26% em relação ao ano passado.
A abundância de mercadorias prejudica os lucros. Se, para algumas varejistas, a questão é pagar mais por armazenamento, para outras, o problema é descobrir uma forma de vender - o que geralmente significa baixar os preços.
O cenário é bem diferente do visto há pouco mais de um ano, quando alguns países sofreram com a escassez de ampla variedade de bens, de roupas a eletrônicos. Nos EUA, por exemplo, após um período de poucas vendas nos primeiros meses de pandemia, o auxílio financeiro do governo estimulou as compras, a ponto de algumas empresas de comércio eletrônico terem dificuldades de atender à avalanche de pedidos.
O temor de nova escassez fez com que algumas varejistas aumentassem seus pedidos em meados de 2021, como forma de se antecipar a eventuais pioras nos transportes e conseguir suprir a demanda. Mas o contexto mudou.
Embora as cadeias de suprimento ainda permaneçam complicadas, a realidade de consumo é outra. Em maio, por exemplo, as vendas no varejo dos EUA caíram, refletindo, entre outros problemas, a mudança no perfil de gastos.