03 de abril de 2026
Geral

Semeador de ideias

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 5 min

O gosto pela agronomia surgiu ainda na infância, nos fins de semana em que Aloisio Costa Sampaio passava com os avós maternos nos pomares de um sítio. Herdada também do pai, engenheiro agrônomo, a inspiração para seguir em frente na mesma formação foi tanta que Sampaio não tirou mais os pés da universidade. Docente da Unesp de Bauru há 34 anos, ele é um semeador de ideias e ações não só junto a alunos da graduação e pós da Faculdade de Ciências (FC), mas também em movimentos da sociedade civil organizada, onde atua ativamente.

Atual presidente da Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Bauru (Assenag), Aloisio ficará marcado na história da entidade por ser o segundo agrônomo a presidi-la em quase 56 anos de fundação. Também é membro do Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Comdema).

Presente em discussões importantes para Bauru, ele comenta que, há cerca de um mês, após uma conversa informal com o vice-prefeito Orlando Costa Dias, enviou um compilado com ideias e sugestões pessoais para problemas estruturais do município. "É meu papel como bauruense tentar ajudar a cidade de alguma forma", pontua.

JC - Como foi crescer em Bauru?

Sampaio - Sou bauruense criado na Vila Cardia. Passei muitas tardes com meus irmãos brincado na rua Piauí. Havia um campinho frequentado por crianças do bairro. Nessa época, eu jogava bastante futebol e aprendi, depois, o tênis também, esporte que nunca mais larguei. Hoje, jogo no Bauru Tênis Clube (BTC). Me casei aos 26 anos com Eliete e tivemos dois filhos, a Débora e o Lucas, que são meus amores.

JC - A paixão pela agronomia surgiu nessa época também?

Sampaio - Sim, meu pai, José Ribas Sampaio, foi engenheiro agrônomo e trabalhava no que hoje é a Cati (Coordenadoria de Assistência Técnica Integral), mas ele morreu cedo, aos 45 anos. E frequentávamos muito o sítio dos meus avós maternos em Mineiros do Tietê, onde havia plantação de eucalipto e café. Foi lá que minha paixão despertou mesmo pela área. No primeiro colegial, eu já estava decidido a cursar agronomia, tanto que pesquisei as melhores faculdades para o curso e foi quando encontrei a Unesp de Jaboticabal, onde me formei em engenharia agronômica em 1987.

JC - Seus irmãos também seguiram os passos do seu pai e se formaram em engenharia?

Sampaio - Meu irmão mais velho, o Artur, é engenheiro civil, hoje CEO da Ecovita, e meu irmão mais novo, o Ricardo, é engenheiro civil também, mas hoje é auditor na Receita Federal. A minha irmã Ester seguiu outra área, é advogada em São Paulo. Minha mãe, a Neuza Aracy Costa Sampaio, é professora e sempre nos incentivou e batalhou depois da morte do meu pai para que nós todos estudássemos.

JC - O que a trajetória acadêmica lhe trouxe para a vida?

Sampaio - Cursei o colegial em escolas públicas e, para conseguir passar no vestibular da Unesp, cheguei a estudar até 7 horas sozinho em casa. A universidade me abriu mundos, o campus de Jaboticabal era muito estruturado. Logo depois de formado, passei a dar aulas na Unesp de Bauru, o que me trouxe uma experiência enorme pelo contato com outras áreas, como a Humanas e Biológicas, o que me fez não ficar restrito a um olhar mais técnico. Isso colaborou muito para que eu ampliasse meus horizontes e o relacionamento social, tão importante para o mercado e a vida. Engatei no mestrado e, depois, no doutorado, em Botucatu. Hoje, sou livre docente da FC. E, ano que vem, completo 35 anos na Unesp.

JC - Uma de suas fortes atuações é na extensão universitária rural, no estímulo à fruticultura regional e à agricultura familiar. Por quê?

Sampaio - Essas são algumas frentes que atuamos com cursos e palestras. A fruticultura na região é solidificada em culturas perenes, como citrus e abacate, indicadas para solo arenoso. Mas, a cidade tem uma área rural pequena e precisa pensar em agregar os municípios vizinhos. O foco precisa ser maior também na agricultura familiar por ela ser menos favorecida com a tecnologia. O maracujá, por exemplo, traz um bom retorno e ajudaria ampliar a renda das famílias.

JC - Quando e como ingressou para as entidades da cidade?

Sampaio - Diante da minha atuação na extensão universitária, a Unesp me indicou para assumir sua vaga no Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural, há uns 20 anos. Algum tempo depois, fui convidado pela Assenag para ser vice-presidente de Agronomia. E, há 8 anos, acabei indicado também para ser membro do Condema, representando a Unesp.

JC - Quais suas principais missões e embates à frente da Assenag?

Sampaio - A entidade é bastante proativa diante dos problemas de Bauru e eu darei continuidade às discussões. Sobre a questão dos resíduos sólidos, por exemplo, chegou a hora de sentarmos e discutirmos com todos os setores e entidades. Também quero fortalecer as Terças Culturais da Assenag, enfraquecidas na pandemia.

JC - Além de semear ideias dentro da universidade e entidades, você também apresentou sugestões ao poder público para problemas de Bauru?

Sampaio - Na verdade, fiz um compilado de ideais minhas ao vice-prefeito e entreguei há cerca de um mês. Entre elas, sugeri que a prefeitura use parte dos R$ 75 milhões (oriundos da dívida federalizada do viaduto) para abrir licitação e contratar projetos executivos e arquitetônicos de macrodrenagem e apontei alguns locais problemáticos. A cidade perde recursos por falta de projetos. Bauru é um centro universitário e logístico fantástico, só precisa ser colocada nos trilhos do desenvolvimento.