11 de julho de 2026
Política

Atos pela democracia: defesa da sociedade ou movimento político?

Tânia Morbi
| Tempo de leitura: 3 min

Atos promovidos na última quinta-feira em todas as capitais estaduais do país mobilizaram centenas de milhares de pessoas em torno da manifestação em defesa do estado democrático de Direito e do sistema eleitoral brasileiro. Simbolicamente, cartas contendo o conteúdo e capitaneadas pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) foram lidas.

Mesmo com cunho fortemente institucional, as manifestações não deixaram de ser políticas, considerando, por exemplo, posicionamentos do presidente Jair Bolsonaro (PL), que foram avaliados como de risco à democracia do país, especialmente ao se referir ao resultado das próximas eleições.

No programa Café com Política desta sexta-feira (12), o assunto foi tratado por sua equipe de jornalistas e especialistas com o convidado, o advogado e ex-vereador Milton Dotta Júnior. Para ele, a espécie de reedição do manifesto de 1977 (a favor da democracia, que não existia na época), ocorre num momento adequado. "É uma reedição daquela de agosto de 1977, mas em abril (do mesmo ano) teve pacotão do general Ernesto Geisel, então a carta foi um contraponto às medidas que o regime militar tomou na ocasião. Hoje, elas (manifestos pela democracia) vêm para demonstrar que o caminho é o do equilíbrio e respeito entre as forças antagônicas que se apresentam no cenário nacional", avaliou.

ESCOPO IDEOLÓGICO

O economista e apresentador do programa, Reinaldo Cafeo, ponderou o possível contorno político/eleitoral do manifesto, que reflete a polarização da disputa deste ano entre Jair Bolsonaro e Lula da Silva. "Inclusive o presidente Jair Bolsonaro não assinou a carta e emitiu outra em redes sociais, porque ficou a história da esquerda estar mais presente na assinatura. Passou a impressão de uma militância mais forte do escopo do ideológico à esquerda", opinou Cafeo.

Kleber Santos, especialista em marketing político e comunicação eleitoral ressaltou a importância do apoio à manifestação enquanto demonstração em favor da democracia. "Toda ação neste sentido tem que ser extremamente apoiada e incentivada. Do ponto de vista do marketing e da comunicação, a parcela de conotação política tirou o brilho total", constatou.

SEM GUARIDA

Porém, Kleber considerou que os posicionamentos de Bolsonaro quanto à democracia são apenas retórica para ganho político junto a seus eleitores. "Ele utiliza o discurso populista, com falas para manter a militância aquecida. É discurso populista, porque todos sabem que o país conta com Parlamento, Judiciário e imprensa fortes, permanentemente, apostos para impedir qualquer retrocesso democrático", pontuou.

Já o diretor de jornalismo do Jornal da Cidade/JCNET, João Jabbour, avaliou que o ato teve mais simbolismo na defesa de instituições do que uso político eleitoral, em função do aparente risco para a sociedade, diante de declarações do presidente que remetem a um possível golpe. "Eu nunca achei isso algo concreto, até porque as próprias Forças Armadas nunca deram guarida a este tipo de ideia aventada em discursos do presidente. Os atos desta semana foram uma marcação de posição para dizer 'vamos seguir com a eleição de forma equilibrada, pensada naquilo que une o país e faz ele avançar'. Foi um grande recado para o processo político e eleitoral por parte, inclusive de uma elite econômica (Fiesp e Febraban) que, em grande parte, vota em Bolsonaro, mas tem aversão a ambientes de risco e instáveis, excepcionais", comentou.

ABSTENÇÃO

Outro assunto tratado pela equipe do Café com Política foi o efeito que a alta e crescente taxa de abstenção de votos ao longo das últimas eleições vai ter sobre o resultado deste ano. Na avaliação dos articulistas, a abstenção pode aumentar ainda mais em uma eleição polarizada como esta. A equipe também tratou da corrida ao Governo do Estado de São Paulo, de pesquisas de intenção de votos e da possibilidade de que debates entre os candidatos não sejam destaques neste ano.

Os posicionamentos que a defesa da prefeita Suéllen Rosim (PSC) adotou na semana que passou, na Comissão Processante instaurada contra ela, também foram avaliados.

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