Por muitos anos, inúmeros dependentes químicos de todas as idades se concentravam - especialmente com a ascensão do crack - na extensão da linha férrea de Bauru, onde atravessavam a madrugada e circulavam pelos trilhos, sob os efeitos dos entorpecentes. A situação era tão crítica a ponto de parte da população se referir ao trecho da região central como a "cracolândia bauruense". No entanto, essa realidade se transformou nos últimos tempos. De acordo com as polícias Civil e Militar (PM), os usuários se dispersaram e, em grupos menores, passaram a se instalar em diferentes locais da cidade.
Segundo as autoridades, algumas das localidades para onde esses dependentes migraram foram: o prédio do antigo 1.º Distrito Policial (DP), na avenida Comendador Daniel Pacífico, Vila Falcão; a Praça Machado de Mello, em frente à antiga Estação Ferroviária, no Centro; e a Praça Rui Barbosa, também na região central.
O delegado titular da 2.ª Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise) da Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic), Luiz Augusto Puccinelli, relata que é difícil apontar a explicação exata para a mudança de comportamento dessas pessoas. Porém, na visão dele, trata-se de algo cíclico.
"Antes, eles ficavam concentrados na linha férrea, também sob o viaduto do INSS e o antigo viaduto inacabado (atual Nicola Avallone Júnior). Hoje, há uma pulverização pela cidade, incluindo uma concentração naquele trecho da avenida Daniel Pacífico. E pode ser que isso mude daqui a algum tempo. Não há um padrão no comportamento dessas pessoas. Sabemos que é um problema mais relacionado à condição social delas", explica.
ANTIGO DP
E é exatamente na av. Daniel Pacífico que fica o prédio do antigo 1.º DP. Conforme o JC já noticiou, o imóvel foi desocupado pela Polícia Civil em 2013 e devolvido pelo Estado à Prefeitura de Bauru.
A intenção do Poder Executivo é instalar, no local, um Centro de Referência em Assistência Social (Cras) e um Centro de Referência Especializado em Assistência Social (Creas). Mas, segundo a prefeitura, não há previsão para isso ocorrer, pois depende de repasse de verba estadual.
Enquanto não recebe uma funcionalidade, o espaço é ocupado por usuários de drogas e demais pessoas em condição de vulnerabilidade. Moradores do bairro que procuraram o JC, inclusive, já até apelidaram o imóvel de "nova cracolândia de Bauru".
Entretanto, para as autoridades policiais, não existem aspectos suficientes a fim de enquadrar o lugar nesta denominação, como, por exemplo, um alto nível de violência na região.
'GEOGRAFIA'
Segundo a polícia, uma possível motivação para a ocupação do prédio da Daniel Pacífico seria a posição geográfica do imóvel. "Só pelo prédio estar abandonado, ele já pode acabar sendo usado por dependentes químicos e pessoas em situação de rua. Além disso, perto dali, há a linha do trem, usada por eles para acessar a região central da cidade, onde conseguem recursos como alimento, banheiro e pedem dinheiro para comprar bebidas alcoólicas ou ilícitos", detalha o capitão Osnei Rodrigues Cesetti Junior, comandante da 3.ª Companhia da PM - que faz o patrulhamento do bairro - do 4.º Batalhão de Polícia Militar Interior (4.º BPM-I).
Outra explicação seria também a proximidade do imóvel com locais de vendas de entorpecentes. "Mais abaixo, há a favela São Manoel, um histórico ponto crítico de tráfico de drogas da cidade", complementa o oficial.