A série turca que está na Netflix "Uma Nova Mulher", conta a história de três amigas íntimas e generosas que decidem ir para uma cidade do litoral para vivenciarem uma experiência espiritual. Elas participam de uma vivência terapêutica porque uma delas está doente e tenta entender através desta prática, não só a raiz de sua doença, mas ajuda e busca de cura.
Através da vivência da constelação familiar criada por Bert Herlling elas acessam conteúdos de suas vidas difíceis de enfrentar, e a partir destas vivências elas acessam um caminho de perdão e cura que se estabelece entre cada uma e seus antepassados. Enquanto a série percorre seus episódios é possível notar que a cura não é algo que se atinja por meio de uma vivência, mas sim um processo longo e profundo de tratamento.
Na vivência terapêutica elas ficam diante de situações que nem mesmo elas sabiam e lembravam de suas próprias histórias, mas a partir da experiência vivida na constelação elas procuram transformações em suas vidas. A séria possui uma narrativa sincera onde as vivências se sustentam, e o aspecto bonito da trama está na ânsia delas tentarem se entender a partir de suas dificuldades do cotidiano: um começo. E diante da prática que escolheram vivenciar constatam que nada começou ali, e sim em gerações passadas, que enquanto não acessados e tratados, continuam a lhes perturbar.
São 8 capítulos de reflexão também para nós expectadores, e a cada capítulo podemos constatar que não há "modelo mágico" para a cura, e quando se trata de inconsciente, de histórias de vidas passadas, de antepassados, somos o produto de tudo que carregamos dentro de nós, mesmo quando negamos enxergar, e mesmo que nosso consciente não tenha a lembrança do registro: no inconsciente está registrado tudo. No decorrer da trama constatamos o impacto das vivências entre os membros que estiveram presentes na prática da constelação, e o quanto todos almejavam respostas. Os traumas necessitam serem tratados, e o inconsciente armazena tudo o que nossos antepassados vivenciaram. Olhar para dentro de nós numa psicoterapia onde temos a chance de nos colocarmos com disposição e amor à verdade, parece ser o único caminho de transformação: sermos apresentados a nós mesmos, ao nosso verdadeiro "eu" pela profundidade e constância que se estabelece num tratamento de psicoterapia.
A dinâmica do recordar, repetir, elaborar necessita de tempo, e os traumas são individuais, deixando marcas únicas em cada um de nós: cada um sente e reage de um jeito, além de existirem muitos elementos individuais em jogo, muitos acionamentos que necessitam ser considerados mesmo quando são pessoas da mesma família.
O filme é um mergulho para dentro de nós se pudermos, enquanto estivermos assistindo, nos percebermos participativos na manutenção de nossas histórias do passado, presente e futuro, e enquanto nos tratamos, seja no tipo de psicoterapia que decidimos ser a melhor para cada um de nós, quem sabe o quanto podemos pretender aliviar o futuro olhando o passado.
Este texto foi escrito ao som da música "Hello", de Holow Coves.
A autora é psicanalista pela USP/SP, psicóloga clínica, formada pela USC