09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Dois homens e um soldado

Luciana Dias Duarte Falcão - Servidora do Tribunal de Justiça
| Tempo de leitura: 3 min

A terra queimada e as árvores que ainda estão em pé, nada dizem sobre a noite de medo que duas famílias passaram, dia 15/08 em Piratininga, mas contam a história de como é viver em uma terra, na qual se pode contar apenas com a coragem e humanidade de dois Homens e um Soldado.

Mudei-me a uma semana para a casa que meu marido e eu construímos com nossas vidas. A mesma história segue meu vizinho. Duas famílias, desesperadas ao ver o fogo aumentar e aproximar-se de suas casas por mais de 03 horas. Vimos árvores em tochas e labaredas avermelhando o céu, pois a fazenda, atrás de onde moramos, ardia em fogo... Fogo que nos traz a suspeita de queimada ilegal - uma irresponsabilidade que sei, nunca será apurada. Entre inúmeras tentativas de contato com os Bombeiros (193), ouvimos por muito tempo a gravação: "nossos atendentes estão todos ocupados". Depois, quando consegui contato informando que o fogo continuava a se aproximar das casas e que havia crianças no local, a irritada atendente me disse "que já haviam registrado o chamado e que não adiantava eu ficar brava com ela". Empatia - zero, preparo profissional - nenhum. Talvez ela nunca tenha visto o fogo de perto. Talvez estivéssemos atrapalhando sua noite ou a incomodando em seu trabalho burocrático, afinal éramos apenas duas famílias...

Durante todo o tempo em que as chamas subiam entre as árvores, enchendo o ar de fumaça, fuligem e medo, pudemos contar apenas com a ajuda de um caminhão pipa que creio ter sido enviado pela Prefeitura de Piratininga. Nele, dois Homens e um Soldado da PM acionavam o equipamento, jogando água, próximo ao fogo. E logo ouvimos: "A água acabou, temos que ir para Bauru, reabastecer" - e assim o fizeram.

Gostaria de agradecer à Prefeitura de Piratininga e a essas valorosas pessoas que não ficaram assistindo mais uma tragédia causada pela irresponsabilidade criminosa de quem ateou fogo. Nem ficaram esperando uma denúncia na TV para correrem com viaturas para apagar - não só um incêndio - mas a prova do descaso do setor público. Não sei o nome daqueles Homens e do Soldado (que dentro do possível, fizeram seu melhor), mas eles tem minha eterna gratidão. Haviam ali, duas famílias, com crianças e sonhos de toda uma vida .

Quanto à atendente dos Bombeiros, deixo de declinar seu nome (deve estar gravado nas ligações). Sei que nunca serei procurada para apuração de fatos - afinal, eram só duas famílias.

Quanto aos Bombeiros do Estado de São Paulo, que sempre admirei, só tenho a lamentar que, quando de sua chegada no local, só restavam cinzas. Se faltam equipamentos, pessoal ou treinamento, não sei. Sei apenas o que vivenciei como pagadora de impostos e como cidadã: ver meu vizinho tentando evitar que o fogo chegasse a sua família, com uma mangueira de jardim enquanto se repetiam as ligações sem resposta e estalava um fogo assustador.

O incêndio ocorreu em Piratininga, mas os bombeiros, embora lotados em Bauru, são Servidores do Estado... Mas afinal, em um país, de tragédias anunciadas, de vidas que apenas alimentam estatísticas, o que se pode esperar de "instituições?

Eu nada espero...

Como de costume, ao final de cada desastre, ouvimos a voz lacônica de alguma autoridade: "Tudo está controlado"... Não meu senhores - nada foi controlado... Ao contrário - tudo já havia sido queimado e o que não foi destruído pelas chamas, dependeu da coragem de dois Homens e um Soldado.