Nossa!
Do tanto que vivi e não foi pouco, nunca vi coisa assim. Há um ódio político-ideológico escorrendo perigosamente das bocas descontroladas. Um impulso de esmurrar o nariz do desafeto. Vontade de pular no pescoço dele, morder-lhe a cara e, com garras felinas, arrancar-lhe a jugular. Pasmem!
Todo esse ódio não está confrontando apenas os que se odeiam politicamente, mas também, o que é terrivelmente lamentável, familiares. A coisa tá pegando fogo entre pais e filhos, filhas e mães, marido e mulher, irmãos, cunhados, até mesmo entre amigos antigos, aqueles do longínquo jardim da infância. Nas redes sociais, o barraco está armado. Saí de perto! Jatos de cusparadas e vômitos são disparados na cara da esquerda e da direita reciprocamente.
"Meu Deus, em que século me fizestes nascer!". Achei a frase preciosa por retratar a cara dos nossos dias. Caí do cavalo, quando soube o autor: São Policarpo, um mártir do século II da nossa era. Então sempre foi assim? Então, nada mudou? É de perder a esperança. O homem teria sido uma experiência que não deu certo? Nada disso, não sejamos pessimistas, a humanidade ainda tem jeito. Um pouco de paciência ajuda.
É verdade que ainda estamos de quatro, mas um dia ainda bípedes seremos. Tanto assim é que já temos uma novidade: o "deboísmo". Que bicho é esse? Fui pesquisar. Um movimento de reflexão de gente "da boa" que vive numa "boa" espalhando mensagens "boas" para arrefecer esse climão de guerra, sobretudo nas redes sociais.
Essa gente deboísta desistiu de trocar chumbo, não arma mais barraco, almoça domingos, em família, com cadeado na boca e entendeu, finalmente, que o melhor é fazer um miojo e ir dormir.
Mal os deboístas colocaram sobre a mesa a mensagem de glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade, começaram a levar porradas tanto da direita quanto da esquerda. Quem mandou ficar no meio? "Esses deboístas são uns cagões, vivem em cima do muro, não se posicionam.
O mundo está estourando em guerras, corrupção, violência, miséria, fome, machismo, racismo, sexismo e esses caras ficam teclando coraçõezinhos, acarinhando pombinha branca e pintando a vida de rosa e de azul, cores que devem vestir meninas e meninos. Essa gente precisa acordar, gente!"
Peraí.
Claro que é preciso debater, discutir ideias, posicionar-se, mobilizar-se politicamente por um país melhor. Ficar em cima do muro realmente nada contribui para a conversa corajosa e necessária. Mas debate de ideias é uma coisa e bate-boca é outra bem diferente. No debate, o argumento é substantivo; no bate-boca, adjetivo. No debate, falo, mas também escuto, até aprendo; no bate-boca, sou surdo, cuspo e agrido.
No debate, falo moderadamente; no bate-boca, esgoelo-me de tímpanos arrebentar. No debate, peso, pondero e respeito as razões alheias; no bate-boca, deliro, espumo e homenageio a mãe do desgraçado que, eventualmente, pode ser minha também. Se o cara tiver vó, homenageio também! Uma coisa é uma coisa, outra coisa bem diferente é. Não dá pra confundir!
Então, finalmente, me pergunto. Será que tanto ódio pode ser explicado pelo tamanho do amor cívico que nutrimos pela pátria? Ou tem coisa escondida nisso tudo? Não sei não...
O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.