08 de julho de 2026
Articulistas

O oitavo dia

Luís Victorelli
| Tempo de leitura: 1 min

No princípio era o braço, e o braço nasceu com ele. Subiu nas árvores, pintou nas rochas, caçou comida. Deu-lhe força, confiança e coragem, e viu que era bom. Houve uma tarde e uma manhã: o primeiro dia.

Ao amanhecer, lascou a pedra. Cavou, cortou, modificou. E viu que era bom. Houve também uma tarde: o segundo dia.

No terceiro, mais seguro, dominou o fogo. Aqueceu-se no frio, defendeu-se das feras, alimentou-se melhor. E viu que era bom. Houve uma tarde e uma manhã.

Acordou mais forte. Forjou o aço! Derreteu e moldou. Arou, plantou e armou-se. E assim se fez. E viu que era bom. Houve uma tarde e uma manhã: o quarto dia.

Veio o quinto, e com ele emaranhou-se nas engrenagens. Fabricou, imprimiu, reproduziu. Viajou, conquistou, explorou. Massificou! E viu tudo quanto havia feito, e achou que era muito bom. Entardeceu e alvoreceu.

Diante de soberbo périplo, chega o sexto dia. Emerge-se o silício! Revoluciona, transcende, encanta. Expande e concentra, aproxima e afasta, ilumina e ilude. Um oráculo num simulacro, sobe às nuvens.

Assim foram concluídos os dias. No sétimo, ao regozijar-se numa rede preguiçosa para deitar, por toda a obra que fizera, tem seu merecido descanso gaiatamente interrompido: surgem as pragas das fake news!

Essa é uma ligeira história da criação de homens e mulheres sobre a terra e sob os céus.

 O autor é jornalista.