10 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

A nação pede ajuda numa quadra difícil de sua existência!

José Misael Ferreira do Vale
| Tempo de leitura: 3 min

A nação brasileira entendida como espaço social que reúne o conjunto de indivíduos que ocupam um território ou lugar físico e que falam a mesma língua como fator de unidade social, compartilham dos mesmos valores morais e crenças, sob o abrigo de leis aprovadas em parlamento, está sob perigo! Nunca, em tempo algum, o futuro se apresentou tão aziago ao grande país da América do Sul! Os problemas são muitos e têm origem histórico-social remota que se avolumaram em tempos recentes mercê da incúria administrativa de muitos!

Como sempre, apelo pela vivência pessoal, para contextualizar as questões de base! No final de 1950, quando concluía o antigo ginásio, tive a oportunidade ímpar de conversar amigavelmente com o nobre deputado Borges dos Reis, liderança do magistério primário, digno representante do Centro do Professorado Paulista (CPP), instituição social que na ocasião congregava Diretores de Grupo Escolar, Inspetores Escolares, Educadores de 1ª a 4ª séries, servidores de apoio, além de alguns Delegados de Ensino concursados, a maioria indicados pela Administração Superior da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. O Grupo Escolar foi, durante longo tempo, a base do ensino primário, somente extinto com o advento da Escola Estadual de oito anos numa tentativa de articulação do ensino primário com o ginásio. Diga-se, entretanto, que o ensino primário mantido pelo Governo do Estado foi historicamente instituição sólida construída com objetivos bem definidos de formação da juventude.

Lembro-me que a conversa com o ilustre deputado Borges dos Reis, Educador e Poeta, girou em torno da Escola Primária, seus objetivos e limites. Conversa substanciosa que, a certa altura do diálogo, após o deputado defender o ensino público e a necessidade de melhorar o processo de alfabetização nas escolas chamou a atenção para a necessidade de a escola primária se articular com a Secretaria da Saúde no sentido de promover a saúde do educando, principalmente no tocante à vacinação de alunos. Foi no período de 1945-1946 que recebi a vacina BCG, parece-me, sob a forma de pílula a ser engolida para fazer frente ao surto de tuberculose que se avizinhava na época. A sugestão do Deputado era algo nova, mas desafiante para uma escola que funcionava de modo isolado do contexto social..

O momento alto da conversa entre os presentes quando envolveu o professor Diretor de Grupo Escolar, já falecido, Dirceu Ferraz do Vale, com este que vos escreve e o douto deputado, oportunidade quando o legislador ressaltou a importância da merenda escolar e da segurança pública nas escolas! O Parlamentar insistiu na ocasião que o crime organizado estava a despontar e que no futuro seria uma "pedra no sapato" da Sociedade tomada como um todo. Vale dizer que as observações do Deputado evidenciaram espírito social em relação à práxis escolar e consciência de transformação social que se avizinhava. Sob o aspecto estritamente pedagógico a fala do Parlamentar foi esclarecedora. De formação conservadora, numa sociedade católica, defensora de valores familiares, não seria de admirar que a igreja monopolizasse o "coração e a mente" das autoridades e da maioria da população e, assim, o sistema político se articulasse à fé religiosa! Nada mais natural o fato de o parlamentar advogar uma visão conservadora.

Bom lembrar que o fechamento político-religioso tornou-se agudo com as medidas conservadoras do presidente Eurico Gaspar Dutra. Mas, tudo isso não impediu que o Educador declarasse a importância do civismo na Educação, coisa que mais tarde Milton Santos criticaria nas escolas do país a evidente "deficiência cívica" geradora de irresponsabilidade social coletiva diante do destino da Pátria esquecida. O deputado recomendava o ensino da História Pátria para a criação da consciência coletiva de nação organicamente constituída como Estado.

Não se poderia esquecer de a necessidade de se criar nos jovens a consciência moral centrada no respeito às pessoas e à sociedade civil. Como poeta, ressaltou a função prática-política da Língua Pátria como instrumento social por excelência de cultura nacional. Terra de grandes poetas, o Brasil não poderia deixar de cultuar a língua materna como ponto importante na construção de uma nação consciente e afirmativa.