No mês de setembro estendemos o nosso olhar para o suicídio, suas manifestações e causas, onde observamos que os transtornos que provocam o desejo de morte estão cada vez mais comuns no mundo todo. São muitas as causas que levam uma pessoa a suicidar-se, e em cada um que sofre há uma necessidade de ser escutado, existe algo a ser dito, algo sendo dito faz tempo: por gestos, pelo silêncio, pelo olhar, pelo comportamento.
Olhar a dor significa muitas vezes olharmos para aquilo que mais tememos, mas enquanto não olhamos, não podemos experimentar um caminho que dê a oportunidade de criar um sentido para tudo aquilo que não conseguimos suportar. Em muitos relatos de Freud ele indica desejos de seus pacientes onde a ameaça do suicídio se relaciona com estados de depressão e desejo de vingança, sendo cada situação respaldada por um ou vários tipos de sentimentos: culpa, vingança, humilhação, vergonha, falta de sentido existencial, confusão existencial, falta de um ambiente propicio para ser quem se deseja ser, relações hostis, sendo estes alguns exemplos que podem contribuir para a compreensão dos estados mentais de quem está em sofrimento, querendo tirar sua própria vida.
A autodestruição revela a necessidade de destruir o objeto que o ameaça por dentro e suas fantasias latentes, havendo no suicida a necessidade de aniquilamento de seu aparelho de sentir e pensar para escapar de sofrimentos insuportáveis. Freud destaca que a pulsão constitui um representante psíquico dos estímulos provenientes do corpo e que está na fronteira entre o psíquico e o somático onde nem a fuga é capaz de eliminar. A pulsão tem seus aspectos mentais como impulso e desejo, e na destrutividade presente no suicida, e a pressão obtida a partir da tensão de seus próprios sentimentos, tirar a própria vida torna-se uma opção para a resolução de seus conflitos, onde a pulsão redimida não tendo suporte de energia e tendo recalcado sua representatividade, tem sua pujança manifestada através do afeto que se transforma em angústia.
O suicida não quer morrer, na verdade ele quer escapar de um sofrimento insuportável onde a morte é equacionada para promover uma solução para seu sofrimento. Existe nele um conflito que sobrepõe qualquer outra realidade, e diante do sofrimento, pensar a morte é a única saída para desvencilhar-se da sua dor. Quem escolhe morrer, via de regra está submerso em um sofrimento avassalador, onde a angústia não é a causa da morte, mas uma forma de exterminá-la.
Estamos diante de situações extremas de sofrimento e estas pessoas necessitam serem escutadas, olhadas, sem julgamentos. Não há garantias que possamos modificar seu estado mental e nem que elas consigam sair deste emaranhado existencial que as acompanham faz tempo, mas o nosso papel reside em dar o suporte necessário para quem sabe elas consigam pensar na vida e não na morte como solução para a sua dor. Este texto foi escrito ao som da música: "You've Got a Friend" de James Taylor.
A autora é psicóloga clínica, psicanalista pela USC, especialista pela USP - Dpto. Psicologia.