09 de julho de 2026
Articulistas

Só os loucos sabem

Alexandre Benegas
| Tempo de leitura: 3 min

Sem chance, sem receita facilitadora capaz de entender a vida. É reflexão mesmo. Os avanços se dão como podem. Por dedicação, propósito, bem à luz da compreensão, porém, quando ocorrem pelo escuro, impossível recuar. Nesse novelo, a gente encontra o fio de humor, a fagulha do afeto, reticências de inquietações, pontos de criatividade. Entre avanços e retrocessos, o medo, suserano absoluto. Ardiloso, visita nossas intimidades, altera o batimento cardíaco tornando a respiração arfante. Já não bastam o remédio tarjado, o ser terapeutizado, o medo é farejador.

Os outros espiam os loucos. Loucura. Muitos espiam os loucos. Mal sabem da loucura dos loucos, o que é ter pensamento ruminativo, ruminativo, ruminativo, o que é deitar insônia irredutível à paz, o que é olhar pro espelho e ouvir triste e doloridamente repetitivo o pensamento, esse ditador que ruge, como um ancestral. Ah! Que esse pensamento obsessivo- compulsivo que mora em mim precisaria ser domado, sob pena de se explodir, expandir, dominar as horas, o dia, a semana. Isso mesmo, a semana. Pra que tanto sofrimento, meu Deus? Só os loucos sabem. O pensamento, uma vez mais, rumina. Inquietante como grafite quebrada, desassossega a paz da folha em branco. O pensamento obsessivo-compulsivo insiste na inutilidade da recorrência, sussurrando um enorme passado pela frente.

Num dia, o louco atrás dos óculos acorda com a sensação confortável, tão rara como uma alegria escrita à tinta na décima oitava linha no canto direito do caderno espiral de capa dura da aula de filosofia. O louco coleciona cutículas, se encanta mais com a unha que com o esmalte. O louco, desimporta se é José Maria ou Maria José, ama com profundidade de mar, se veste, fala inglês, anda, dirige, estaciona, para, come, bebe, senta no descanso das horas e espera o sol esfriar. O louco faz silêncio de pedra, os normais se desesperam em falanges coletivas. O louco - coitado! - se usasse Ray-Ban, disfarçaria sua loucura. Certo estava o romancista Edgar Lawrence Doctorow ao afirmar que escrever e atuar são formas socialmente aceitas de esquizofrenia.

Que se a soma desses pensamentos perturbadores que há em mim mais os pensamentos que moram em você assumirem o domínio da nossa mente, impuserem vontade deles dos dias, decretarem o gosto deles pelos arrependimentos e culpas, governarem nossas manias, darem morada pra ansiedade, mais a vontade do julgamento dos outros que se lhes assemelham...a vida será um fado, ressequida como esperança morta ao primeiro contato com a realidade, como criança de castigo no recreio. Os pensamentos voltam, demorando na tristeza das horas, ocupando o que fosse seu: toalha seca, lápis sem ponta, ausência que ocupa, copo se quebrando, lembrança endurecida feito pedra na vesícula, onde essa música que me persegue todo dia? Quando o louco enlouqueceu? Qual o conceito de loucura? O louco, laudado com seus comprometimentos, ou a sociedade que disfarça normalidade, que, agora, plugada no celular busca incessante dopamina digital como estímulo compensador?

A loucura resiste feito tijolo gasto em muro de quintal. É a antecipação em redundância do elo de ligação, do edifício building. Itinerante, mete metro no que ouve e grau no que vê, grita contra o tempo de tratamento. Enquanto isso, os pensamentos vão e vêm como um largo rodo revirando os grãos de café. Assim, morremos dia a dia, bebendo a mesma água para o eterno remédio, seguindo o necessário tratamento. Os outros? Continuam observando nossa loucura.

Por isso, leitor(a), passo por aqui para devolver o resto das palavras que emprestei. Deixo minha gramática e meu dicionário com meus filhos. Alegrei crianças, incentivei jovens. Pus sal no café e açúcar no feijão. Ao experimentar, não deixe o rigor da seriedade também ser sua loucura.

O autor é professor de Língua Portuguesa.