10 de julho de 2026
Geral

Risco de medicação indiscriminada para déficit de atenção preocupa

Guilherme Tavares
| Tempo de leitura: 3 min

Os riscos da medicação indiscriminada para estudantes com problemas de atenção em sala de aula têm sido motivo crescente de preocupação de especialistas, tanto da medicina quanto da pedagogia. O temor é pelo uso de drogas como a Ritalina, nome comercial do metilfenidato, fármaco estimulante do sistema nervoso central e indicado para tratar pacientes com diagnóstico de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).

Nos casos de dificuldade de concentração, principalmente de crianças, é necessário, segundo especialistas ouvidos pelo JC, tentar, primeiro, tratamentos não medicamentosos, como treinamentos neuropsicológicos, cognitivos, motores e psíquicos. "É um assunto polêmico, mas é obrigação de qualquer educador ou escola estar a par disso", defende Denise D'Incao, professora de Filosofia do D'Incao Instituto de Ensino e especialista em Psicomotricidade.

Batizado popularmente de 'pílula da inteligência', o metilfenidato promete aumentar a concentração e, por isso, passou a ser conhecido por pré-vestibulandos e concurseiros. No entanto, pode apresentar efeitos colaterais graves.

No Brasil, estudo publicado no Boletim de Farmacoepidemiologia da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mostra que o consumo do medicamento entre crianças de 6 a 16 anos aumentou 8,33% em todo o País entre 2009 e 2011. No entanto, alguns Estados apresentaram uma explosão no uso, como a Bahia, que registrou crescimento de 1.457,05% no período (leia mais abaixo).

EFEITOS COLATERAIS

O uso indiscriminado do fármaco, sem que haja doença para ser tratada, pode provocar psicose, ansiedade e quadros parecidos com esquizofrenia, aponta o neurologista Igor de Lima e Teixeira, mestre em Neurologia e Neurociências pela Escola Paulista de Medicina (EPM) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

"Espera-se que as crianças passem de ano, e não que a pessoa cuide dos elementos que estão atrapalhando o desempenho escolar", complementa a professora Denise D'Incao, que, desde os anos 70, pesquisa, publica e trabalha com psicomotricidade em alunos com dificuldades de concentração e aprendizagem. Ela defende que muitos casos de falta de atenção em sala de aula são problemas pedagógicos e, assim, não é preciso recorrer primeiro aos medicamentos.

Pupila de Simone Ramain - uma das expoentes da psicomotricidade -, Denise aplica a técnica utilizando diversos exercícios para estimular corpo e mente, que vão desde treinamentos motores a desenhos e desafios intelectuais. "É preciso requerer o treino com atenção. Por exemplo, com um simples exercício de movimento dos dedos, estamos pedindo um esforço de atenção interiorizada em todas as áreas".

SÓ SE NECESSÁRIO

"O tratamento medicamentoso no TDAH é necessário sempre quando não houver melhora satisfatória naqueles não farmacológicos, através de avaliações e treinamentos neuropsicológicos. O que acontece é que o tratamento do transtorno, quando é iniciado por um médico que não é especialista, acaba ficando, na maioria das vezes, muito focado nos remédios", argumenta Igor Teixeira.

Para ele, professores e pais têm papel essencial para um diagnóstico preciso. "Além de minimizar erros, ajuda no tratamento, porque, ao passo que ficam sabendo do problema, acabam contribuindo melhor com o prognóstico".

Nos casos em que a criança precisa tomar algum medicamento, o especialista defende a aplicação de técnicas como coadjuvantes. "Deve-se sempre tentar medidas como estabelecimento de rotinas, atendimento com psicólogo, treinamento neuropsicológico e algumas adaptações na vida escolar", finaliza.