Investigações iniciadas pela Polícia Civil de Bauru em janeiro do ano passado na cidade descobriram um esquema de fraude milionária no Departamento Estadual de Trânsito (Detran.SP). Nesta quarta-feira (21), cinco pessoas - incluindo um diretor-técnico do setor de veículos do órgão - foram presas na Capital Paulista. Além de São Paulo, o bando, de acordo com a polícia, agia em mais 17 Estados de todo o Brasil e, desde que as apurações tiveram início, teria gerado um lucro de, ao menos, R$ 2,4 milhões.
Também foram detidos ontem, na Operação Gravame, três donos de despachantes e um soldado da Polícia Militar, que trabalharia no Detran. Segundo a Polícia Civil, a quadrilha investigada conseguia liberar a venda de veículos com problemas judiciais. Para se ter ideia, até automóveis de proprietários mortos entravam no esquema.
Para isso, o bando clonava senhas de funcionários do Detran a fim de ter acesso ao sistema. Uma vez dentro, os criminosos, de acordo com a investigação, incluíam dados falsos e alteravam as informações oficiais para que os veículos não constassem mais como bloqueados. A estratégia era usada para dificultar a identificação dos investigados.
Desde que as apurações começaram, a Polícia Civil identificou, até o momento, ao menos 1,2 mil transações do tipo.
O bando também conseguia emitir carteiras de habilitação sem que o motorista fizesse qualquer aula teórica ou prática. O valor deste "serviço", ainda de acordo com as apurações, era de R$ 7 mil.
INÍCIO DAS APURAÇÕES
E as investigações dessa fraude milionária tiveram início em Bauru, quando uma funcionária do Detran local notou que sua senha de acesso estava sendo usada indevidamente para baixa de comunicação de vendas de veículos.
A diretoria do órgão fez um boletim de ocorrência (BO) e o Setor Especializado de Combate aos Crimes de Corrupção, Crime Organizado e Lavagem de Dinheiro (Secold), da 1.ª DIG/Deic/Deinter-4, iniciou as apurações.
DIGITAL DE COLA QUENTE
Segundo a polícia, o soldado preso era responsável por indicar, aos clientes interessados na fraude, os despachantes envolvidos no esquema.
Conversas telefônicas interceptadas com autorização judicial apontam que, na questão da obtenção das CNHs, o cliente tinha que ir ao menos uma vez, presencialmente, ao Detran. Lá, era feita uma reprodução da digital do condutor com cola quente.
Com este material, outras pessoas compareciam às aulas no lugar do contratante. A polícia ainda levanta quantos motoristas foram beneficiados pelo esquema. Além da emissão de CNH, a fraude também envolvia cursos de capacitação de condutores.
As investigações continuam para identificar mais suspeitos, além do total de infrações e do dinheiro obtido ilegalmente com o esquema.
FORÇA-TAREFA
Estiveram envolvidos na operação de ontem 43 policiais civis de Bauru e da Divisão de Capturas, 25 integrantes da Controladoria Geral do Estado (CGE), que apura fraudes no Detran, e seis policiais militares da Corregedoria da PM.
Ao todo, foram expedidos 11 mandados de busca e apreensão e cinco mandados de prisão temporária, que resultaram na detenção dos cinco investigados e apreensão de grande quantia em dinheiro e vários outros objetos (leia mais abaixo).
COLABORANDO
Por meio de nota, o Detran.SP diz que forneceu as informações iniciais e está colaborando com as investigações da Operação Gravame. "Os servidores serão preventivamente afastados e os procedimentos de apuração seguirão os trâmites legais", destaca o órgão, complementando que, só em 2022, realizou 2,3 mil fiscalizações e 12 operações conjuntas com as forças de segurança do Estado para combater fraudes.
Já a Polícia Militar afirmou que, por intermédio da Corregedoria PM, atuou na operação tão somente em apoio. "Logo, as informações solicitadas deverão ser encaminhadas à Polícia Civil", conclui a corporação.