10 de julho de 2026
Economia & Negócios

Comida é principal destino de dinheiro do Auxílio Brasil, aponta Datafolha

Por Douglas Gravas | FolhaPress
| Tempo de leitura: 3 min

A tentativa de assegurar a alimentação da família faz com que 76% dos beneficiários do Auxílio Brasil utilizem o benefício para colocar comida dentro de casa, de acordo com pesquisa Datafolha dos dias 20 a 22 de setembro.

Apesar dos esforços do governo para baixar os preços dos combustíveis, isso não teve impacto direto sobre os gastos dos beneficiários, de acordo com a pesquisa.

Os níveis recordes de endividamento das famílias também fazem com que 11% utilizem o auxílio para pagar dívidas.

Em seguida, são mencionadas a compra de remédios (6%) e a aquisição de gás de cozinha (2%); outros gastos são citados por 5%.

No levantamento, 24% dos entrevistados disseram que alguém da casa recebe o Auxílio Brasil, e 7% afirmaram receber o Vale-Gás federal.

CAI PERCENTUAL DOS QUE RELATAM COMIDA INSUFICIENTE

Mesmo com o aumento do Auxílio Brasil para R$ 600 e a queda recente da inflação, para pouco mais de um quarto (27%) do total da amostra do Datafolha, a quantidade de comida em casa foi insuficiente.

Esse patamar representa uma queda ante o observado no fim de julho (32,6%), mas ainda acima do registrado em junho (25,9%), e é o segundo mais alto da série iniciada em maio.

Nos últimos meses, com os alimentos mais caros e a pobreza ainda mais visível nas esquinas da cidades brasileiras, a insegurança alimentar voltou ao centro do debate político.

Em junho passado, a segunda edição do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, da Rede Penssan, apontou que 33 milhões de pessoas passam fome no Brasil --um patamar semelhante ao que havia sido registrado três décadas atrás.

Em setembro, um desdobramento desse relatório mostrou que a fome hoje ronda 1 a cada 3 famílias brasileiras com crianças de até dez anos, sobretudo em lares do Norte e Nordeste.

Em busca de alimentos em uma padaria na região da avenida Paulista, Raian Alves, 23, é um dos brasileiros que vivenciam a fome de perto. "Muita gente está pedindo comida e dinheiro nas portas do comércio, às vezes tem até briga para ver quem consegue ficar perto de padarias. A maioria das pessoas ajuda, mas no frio é mais difícil conseguir alguma coisa."

Para a ativista Dalileia Lobo, que coordena um projeto de apoio a quem está em situação de rua, no centro de São Paulo, o pós-pandemia pode acabar invisibilizando o problema. "Houve um grande esforço e um aumento de doações no começo da pandemia, mas, com a alta dos alimentos, as doações caíram, em um momento de grande procura por comida."

Apesar de tratarem de temas semelhantes, os dados do relatório da Rede Penssan e da pesquisa Datafolha não permitem comparação: o levantamento da Pensann é uma amostra de domicílios usando quatro categorias de gravidade da insegurança alimentar: segurança alimentar, insegurança alimentar leve, insegurança alimentar moderada e insegurança alimentar grave.

Já a do Datafolha, por sua vez, é uma amostra com a população brasileira adulta (16 anos ou mais). Outro ponto é que, no pesquisa do instituto, a resposta se dá pelo que o entrevistado entende por "falta de comida", em uma única pergunta.