O relógio acusa 04 horas da manhã. Excursão escolar. Familiares conferem nas mochilas água, documentos e, é claro, o agasalho. Alunos e alunas, como de costume, agitados. Conversam em voz cada vez mais alta, tentando imprimir alegrias num vozerio crescente. Professores tentam, com singular perícia, lidar com a indisciplina dos comportamentos. Sob as poltronas, pés inquietos alargam desmazelos que disfarçam preguiças. O ônibus ganha o asfalto. Madrugada, momento que não impede a conversa teimosa e perturbadora dos estudantes. Nesse momento de leitura, algo provavelmente conhecido ocorre: faz só 1 minuto e meio que você botou o celular no bolso ou ao seu lado, mas, sem perceber, o seu dedo está novamente rolando a tela em busca de likes, de compartilhamentos ou de outras novidades da timeline. A tela sabe nos seduzir na arquitetura imagética em buscar no olhar alheio necessária aprovação do que aparentemente somos. Você quer ver e ser visto, porém inexiste algo interessante. Você confere no Face, nenhuma solicitação de amizade, apenas curtidas, quem sabe no Insta alguma foto, evento, nada, melhor o Tik Tok, aff!, a curiosidade aumenta, afinal, só se passaram alguns segundos. As mãos se esquecem sobre a tela do celular, se enchem da profusão de cores e sons.
O dia segue em meio à monotonia de mesa arrumada. A tevê, de novo, anuncia mais um caso de corrupção, desabamento, terremoto, racismo. Tudo tão morno, tão casto, melhor um giro, sem compromisso, pelas ofertas na internet. Um produto em promoção aparece. Você sabe da inutilidade dele em sua vida, mas a tentação de aproveitar os 15% de desconto é mais forte. Pronto, a satisfação se renova na confirmação da compra. Para a psiquiatra norte-americana Anna Lembke, instantes assim vêm permeando a vida moderna de um modo excessivo e contribuindo para uma constante sensação de insatisfação, em que picos de empolgação ficam cada vez mais raros. Para ela, a Covid acelerou a tendência já existente de consumo compulsivo. Algo universalmente traduzido em ansiedade, irritabilidade, depressão.
Embora casos graves de abusos de substâncias ou de dependência em sexo ou apostas causem preocupação, atrativos surgidos com a internet e a tecnologia digital massificaram e banalizaram a dinâmica dos disparos de dopamina. Não nos enganemos: a busca constante por realização plena, envolta na ditadura da felicidade, tem gerado em nós frustração. Pudera, o cérebro, ávido por recompensas, entra em um círculo vicioso de compulsão e, não dando conta desse universo de grande abundância dopaminérgica gerado pela sociedade, encontra no celular fornecedor ativo de dopamina digital 24 horas por dia para uma geração cada vez mais conectada.
Por outro lado, reconheçamos que a abundância de notícias adesivaram em nós um incômodo selo: espécie de dependentes da droga da novidade, como se fosse habituado a farejar fatos, clicado pela ânsia da curiosidade, fisgado pelo desejo de comer refeição de prato alheio, de um gesto rotineiramente gasto e previsível como ponto de repartição.
Percepção de que o mundo tem, a todo momento, eventos transformadores, mas passado um tempo, a necessidade de mais e mais eventos chocantes para sentir algo, preencher uma fissura incalafetável. Assim, passamos de horrorizados para entorpecidos. E o pior de tudo isso, deixamo-nos de nos sensibilizar pelo outro.
Dessa forma, seria justamente a vida moderna, com seus passos largos, arfante de desafios, que impõe peso sobre todos que a habitam e, por esse motivo, precisaríamos de algo para sanar essas dores? A reflexão pouco importa, a leitura rasa desse texto o conduz novamente ao celular.
O autor é professor de Língua Portuguesa.