Hyrome Pereira Hashimato, 35 anos, só não sente tanta falta dos absorventes porque o anticoncepcional inibe sua menstruação. Não fosse o remédio, o produto seria parte fundamental de sua lista de compras, mas que, muito provavelmente, cairia para fora do carrinho ante a disparada nos preços dos artigos de higiene. Ela compõe uma das tantas famílias de Bauru que já deixaram de comprar esses itens, tanto que campanhas têm sido feito para amenizar esse triste quadro (leia mais abaixo).
Outras mercadorias do gênero também acabaram em segundo plano na lista de Hyrome. "Parei de comprar sabão, porque está caro. E os mais baratos deixam cheiro na louça", lamenta. "Não cabe no bolso".
Mãe de três filhos e solteira, ela mora em uma pequena casa aos fundos do Parque Real e precisa contar nos dedos o que vai incluir na compra do mês ao receber seu pagamento mensal, equivalente a um salário mínimo.
EM NÚMEROS
Hyrome vive uma realidade que tem se tornado comum às famílias mais vulneráveis de Bauru e que se estende Brasil afora, segundo dados da última pesquisa Kantar. As pessoas em todo o País que deixaram de usar sabonete no banho, por exemplo, aumentaram em 9% no segundo trimestre de 2022.
Inclusive, o levantamento indica, entre outros pontos, que cresceu substancialmente o número de brasileiros que não usam nenhum produto ao se banhar. Somente a água sobre o corpo.
Uma das evidências do que retrata a pesquisa está no mercado. De acordo com o instituto, a compra de xampu no Brasil caiu 4% entre o primeiro e segundo semestres de 2022. Segundo o Kantar, aqueles que ainda o têm na prateleira buscam aproveitar o produto ao máximo.
'ANOS SEM XAMPU'
E há quem simplesmente não consiga comprar. Coordenadora da Casa da Sopa da Vila Dutra, em Bauru, Rose Lopes atendia uma beneficiária do projeto quando, durante uma conversa, ouviu a frase: "Faz muitos anos que meu cabelo não vê xampu".
A declaração, avalia Rose, é o retrato de uma tragédia social. Mas também combustível para combater a situação. Daquele diálogo surgiu o projeto Vida Cheirosa, que visa arrecadar e distribuir produtos de higiene básica - pessoal ou domiciliar (leia mais abaixo).
"Estamos lidando com pessoas extremamente vulneráveis. Famílias com quatro, cinco pessoas e que sobrevivem apenas com um salário mínimo", afirma. Ou nem isso. "Há quem precise lidar com R$ 80,00 por mês", lamenta Rose.