O paulistano Éder Jofre, ex-campeão dos galos e penas, é reconhecido internacionalmente como um dos melhores boxeadores de toda a história do pugilismo. Nos anos em que lutou, havia menos categorias de peso e cinturões, o que tornava uma tarefa mais difícil ser campeão mundial.
O astro do boxe brasileiro morreu na madrugada de domingo (2), aos 86 anos, em Embu das Artes, na região metropolitana de São Paulo. Segundo a família, o ex-atleta sofreu sepse e insuficiência renal aguda.
Quando se discute a categoria de peso na qual Éder conquistou seu primeiro cinturão mundial, a dos galos, cujo limite se estende até os 53,534 quilos, o brasileiro é amplamente considerado como o melhor da história. Não à toa é conhecido como "O Galo de Ouro".
Produto do clã Jofre-Zumbano, família que revelou 28 pugilistas, aliava técnica à pegada com a qual nocauteava com qualquer uma das mãos, reflexo, velocidade, defesa, "queixo", inteligência para se adaptar e coragem. Podia se dar ao luxo de escolher entre atuar com finesse ou "brigar", dominava a arte de castigar o corpo dos adversários, se esquivava e contragolpeava com maestria.
Em sua 38ª luta, Éder, que era treinado pelo pai, "Kid" Jofre, conquistou o título dos galos da Associação Mundial de Boxe (então Associação Nacional de Boxe) em 18 de novembro de 1960, ao nocautear o mexicano Eloy Sanchez, em seis assaltos, em Los Angeles, nos Estados Unidos.
Em 1963, foi reconhecido pelo recém-formado Conselho Mundial de Boxe como seu campeão inaugural dos galos. O brasileiro defendeu seus cinturões ao redor do mundo.
Éder perdeu o título em maio de 65, quando viajou ao Japão para enfrentar o ex-campeão mosca Mashiko Harada. Desidratado para se enquadrar na categoria dos galos, dificuldade crescente para Éder, perdeu decisão polêmica por pontos em 15 assaltos. Um ano depois, retornou ao Japão, onde foi novamente derrotado por pontos por Harada, em decisão justa.
Aos 30 anos, Éder pendurou as luvas, mas, após três anos, retomou os treinamentos e voltou aos ringues em agosto de 1969. Desta vez como pena, categoria de peso cujo limite de peso é 57,153 quilos. Foi o início de uma sequência de 25 lutas, 25 vitórias, 13 delas por nocaute.
Em maio de 1973, pouco antes de completar 37 anos, Éder bateu o cubano naturalizado espanhol José Legra e conquistou o título pena do Conselho Mundial de Boxe por pontos em 15 assaltos. Cinco meses depois, defendeu com sucesso o cinturão por nocaute em quatro assaltos sobre Vicente Saldivar, que entraria para o Hall da Fama.
Nos meses seguintes, Éder viu seu cinturão ser tomado no tapetão, quando seu empresário e o do desafiante Alfredo Marcano não chegaram a acordo.
Permaneceu dois anos inativo, retornou em 1976, somou mais sete vitórias, mas, desanimado, pendurou as luvas em definitivo aos 40 anos, quando seu irmão, Dogalberto, que assumiria como seu treinador, morreu. Antes da fatalidade, animado, o "Galo de Ouro" havia chegado a afirmar que tentaria chegar a mais um título mundial.
Seu cartel definitivo, que lhe valeu um posto no prestigioso e mundialmente conhecido Hall da Fama do Boxe de Canastota, em 1992, registra 78 combates, 76 vitórias, 50 delas por nocaute, duas derrotas e quatro empates.
Em 2018, foi lançada a cinebiografia "10 Segundos Para Vencer", inspirada na vida e carreira do brasileiro. No mesmo ano, por iniciativa de Pelé, ele e Éder se reencontraram pela primeira vez em 45 anos, conversaram e trocaram presentes.
RECONHECIMENTO
Após passar anos sem atender a convenção anual do Conselho Mundial de Boxe, Éder prestigiou a edição de 2019, em Cancún, México, quando foi reconhecido como tricampeão mundial e ovacionado por uma assistência formada por dezenas de campeões mundiais do presente e passado, o que levou o brasileiro às lágrimas.
Lá mesmo, iniciaram conversas para Éder ser incluído também no Hall da Fama do boxe da costa oeste, em 2022. Em Los Angeles para a cerimônia, Éder teve a oportunidade de reviver e se emocionar ao visitar o palco de um de seus maiores triunfos, o famoso Olympic Auditorium, hoje convertido em igreja, local onde venceu o perigosíssimo Joe Medel em eliminatória pelo título.
Apontado pela revista The Ring, em 1997, como o nono maior pugilista de todos os tempos, Éder ganhou uma biografia em 2021: Éder Jofre: primeiro campeão mundial de boxe do Brasil, lançada nos Estados Unidos pelo jornalista e escritor estadunidense Chris Smith.
Depois da morte da mulher, Cidinha, em 10 maio de 2013, a saúde do ex-atleta, que já sofria de encefalopatia, se deteriorou. Ele se mudou para a casa da filha, Andrea, e do genro, Antonio Oliveira, onde ficou até o começo de 2022, quando, por problemas relacionados a questões respiratórias, de equilíbrio e de alimentação, foi transferido, por orientação médica, para uma clínica, onde passou a receber os cuidados mais adequados à sua condição.
Até hoje o "Galo de Ouro" é lembrado com reverência por profissionais da indústria do boxe no Ocidente e Oriente e periodicamente por publicações especializadas, onde é figurinha fácil nos rankings que compilam os melhores boxeadores de todos os tempos, os maiores pegadores e os mais bem-sucedidos retornos ao ringue.