11 de julho de 2026
Política

Falta de liderança em Bauru tira votos de candidatos locais, dizem entidades

André Fleury Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

A ausência de lideranças políticas efetivamente capazes de aglutinar votos e partidos e conquistar o eleitorado é a principal razão pela qual Bauru tem enfrentado dificuldade em emplacar seus próprios representantes em Brasília ou São Paulo, afirmam, de forma unânime, dirigentes de entidades do município ouvidos pela reportagem. Neste ano, como mostrou o JC, metade dos eleitores bauruenses votou em candidatos de fora, com domicílio eleitoral em outras cidades, enquanto outros 50% optaram por nomes de locais.

A avaliação destes entrevistados diverge daquela apresentada pelos candidatos do município, que justificam a derrota a partir da grande quantidade de nomes locais na disputa. Somados, foram 36 candidatos a deputado por Bauru neste ano, entre federais e estaduais. Somente um deles, Capitão Augusto (PL), foi eleito.

Parte dos representantes das associações até concorda que o número excessivo de candidatos por Bauru pulveriza a votação. Mas a quantidade, avaliam os dirigentes, não deve ser vista como impeditivo à derrota dos bauruenses nas urnas.

CAUSA E CONSEQUÊNCIA

Presidente da regional Bauru do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), Gino Paulucci Júnior diz que não há relação direta entre a quantidade de nomes lançados pelo município e a derrota de cada um deles nas urnas. "Poderíamos ter 40 candidatos. Houvesse uma liderança, ela seria eleita mesmo diante da concorrência", afirma Gino.

Porém, ele avalia que, para o eleitor, o excesso de candidatos em uma mesma disputa ofusca as opções locais e contribui para a migração dos votos aos candidatos de outras regiões. Mas isso não é um fator determinante, ressalta Gino.

Em 2018, por exemplo, os 12 candidatos a deputado federal lançados por Bauru obtiveram 62,5% dos votos do município. Neste ano, com 14 nomes na disputa ao mesmo cargo, os postulantes à Câmara dos Deputados com domicílio eleitoral no município receberam 48,33% dos votos, numa queda puxada pela derrocada de Rodrigo Agostinho (PSB), que há quatro anos vivia seu auge político e cuja votação em 2022, sob o aspecto local, despencou pela metade.

PRESENÇA

O resultado das urnas deste ano, diz Walace Garroux Sampaio, presidente do Sindicato do Comércio Varejista (Sincomércio) de Bauru, é acima de tudo um recado aos candidatos do município. "Eles não podem aparecer só na época de eleição e sumir em seguida. Têm que participar da discussão local, marcar presença", afirma. "Assim não se formam lideranças".

Ele também aponta para a ausência dos partidos na vida pública de Bauru durante o intervalo entre as eleições. "As legendas só vêm à tona em período de campanha. Elas precisam se estruturar melhor", critica. Se continuar assim, afirma Walace, o resultado daqui a quatro anos, próxima disputa geral, será igual.

MAIS DO MESMO

Novamente sem representantes eleitos para a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) e com um deputado federal a menos a partir da derrota de Rodrigo Agostinho (PSB), o resultado das eleições em Bauru é retrato de um município carente de uma liderança política consolidada, avalia o economista Reinaldo Cafeo, presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib).

"Vemos um debate político local muito raso. Uma disputa de grupos políticos por determinados territórios. Não há discussões profundas, e isso acaba desorientando o eleitor, que não se vê representado por ninguém e vota em alguém de outro município", afirma. "Evidente que a cidade perde".

Cafeo também critica a falta de diálogo entre os partidos de Bauru. "Ninguém senta para conversar e definir estratégias em conjunto para conseguir eleger um representante. Sinto falta de um pacto pela cidade".

VOTO IDEOLÓGICO

Vice-presidente do Sindicato dos Químicos de Bauru e Região (Sindquimbru), Vanderlei Aparecido de Oliveira afirma que parte do eleitorado de Bauru pode ter abandonado o chamado voto pragmático, que prioriza candidaturas locais, e optado pelo voto ideológico - destinado àqueles cujo discurso é pautado em bandeiras e determinados princípios.

É o caso, cita, de Carla Zambelli (PL), quarta mais votada em Bauru entre os que disputaram a Câmara dos Deputados e conhecida por ser grande aliada do presidente Jair Bolsonaro (PL) no Congresso. "Sem um nome que se destaque no cenário político local, cabe agora aos partidos uma revisão de estratégias para evitar resultados como o que tivemos em 2 de outubro", aponta Vanderlei.

PREJUÍZO

A disputa político-partidária rasa em Bauru faz da cidade sua única vítima, afirma o engenheiro agrônomo Aloísio Costa Sampaio, presidente da Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Bauru (Assenag). "As legendas precisam se unir em torno de candidaturas com maior potencial de voto. Precisamos de novas lideranças e humildade para reconhecer isso", finaliza.