Há alguns anos, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil divulgou em seu Encarte o lançamento do livro “O Horror Econômico”, de Viviane Forrester, que aborda o tema economia e emprego. Segundo a autora, atravessamos um momento grave: é a primeira vez na história que o conjunto de homens não é importante para fazer funcionar o planeta e para produzir lucro. O nível de desemprego na Europa dobrou em 15 anos, entre 1979 e 1994. E tem piorado.
Vivemos numa sociedade que é e que se pretende cada vez mais econômica, que nos faz compreender que nesta economia nós somos o supérfluo. Então, esta sociedade que parece ser puramente uma economia de mercado mascara outra, puramente especulativa, onde não se investe. É uma economia de cassino e de contadores, não é baseada em nenhuma atividade real. Não cria nenhum emprego e domina o mercado.
Vivemos ainda, com relação ao emprego e, em conseqüência, ao desemprego, com os mesmos conceitos do século 19, quando o emprego era a norma. O fim do emprego era uma utopia. O mesmo acontece com as tecnologias de ponta e com a globalização. Gostaríamos que a globalização fosse tomada e pensada pela política, mas isto não acontece. Precisamos mudar de política, mudar a maneira de pensar a política, já que a sociedade e a civilização mudam.
O lucro é o motor da sociedade. A URSS tinha uma única lógica, de suprimir o lucro. Nossa sociedade tem uma só lógica: favorecer o lucro. E ainda por cima sem falar nisso. É preciso olhar a sociedade de maneira realista e parar de dizer que a situação será remediada e de fazer as pessoas passarem suas vidas procurando empregos que não encontrarão. Não se pode mais brincar com esta falsidade.
Outro ponto é a repartição diferente das riquezas. É sempre para as mesmas pessoas que se pede para dividir, e estas pessoas têm sempre muito pouco. Nós esquecemos que existem outros que podem também dividir. Outra coisa é se revoltar contra a flexibilidade. Por exemplo, em Vivorde (Bélgica), que era uma fábrica exemplar, onde os operários aceitaram fazer tudo o que lhes foi pedido e ela foi fechada. Mais de três mil pessoas desempregadas. Outras filiais européias da Renault se mobilizaram.
Quando a fábrica foi fechada, as ações da Renault subiram. Vivemos numa sociedade onde os países se tornam mais ricos quando existe o desemprego. O melhor meio de conseguir lucro para uma empresa é demitir, suprimir o trabalho. A França pode ser prova disto: tem uma alta taxa de desemprego, e ficou mais rica. Outro exemplo aconteceu nos EUA. Em março de 1996, a imprensa noticiou que o desemprego havia diminuído lá. Ao mesmo tempo, todas as bolsas de valores do planeta caíram espetacularmente.
É preciso mudar a política. O desempregado tem o direito de viver. Viver decentemente. O Estado deve se ocupar disto e dar assistência. Não é assistência. É justiça. Não podemos deixar as pessoas morrerem na miséria pelas ruas. Mas deve-se pensar a política de outra forma. Escuta-se que merece o direito de viver a pessoa que seja útil à sociedade. Quer dizer: precisa ser rentável e explorável. É com esta idéia que precisamos acabar. As pessoas estão resistindo às instituições muito mais potentes. A resistência renova as esperanças. E é preciso resistir à extrema- direita, às idéias anti-democráticas e demagógicas.
O autor, Mário Eugênio Saturno, é tecnologista sênior da Divisão de Sistemas Espaciais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.