“Chamo-me Pedro Ricardo Vogliotti, sou casado e tenho 32 anos. Resido atualmente com minha família em Fortaleza - CE. Apesar de paulistano, me considero rio-pretense, pois lá morei por 15 anos, entretanto, adoro Bauru e toda região, em especial a aprazível Pederneiras, cidade onde residem meu sogro e sogra e terra natal de minha filha Jade. Aliás, foi seu Pedro (meu sogro) quem me enviou uma edição do Jornal da Cidade e por esse motivo resolvi escrever minha ‘História de Pescador’. Vamos ao causo que vem de longe.
Desde que cheguei a Fortaleza, cidade que moro hoje, fiquei encantado com as jangadas. Assim como a canoa, é um dos modelos de embarcação mais primitivos do Brasil. Com seu casco extremamente pequeno e delgado, parece um milagre que aquela ‘banda de cabaça’ enfrente o alto mar por até 15 dias.
Num passeio pelo vilarejo de Majorlândia, a 180 km daqui, foi que conheci três companheiros que vivem da pesca da lagosta, o Pirates, o Zé de Nana, filho da DonAna, e o mestre Uó, abreviatura de Washigton. Pois bem, fui convidado a participar com eles da pesca da lagosta que mais parece uma colheita, porque são lançadas no mar ‘cangalhas’ (gaiolas artesanais) com isca onde as bichinhas entram e não conseguem mais sair. Aí a tarefa dos pescadores é recolher as cangalhas, retirar as eventuais lagostas lá de dentro, colocar novas iscas e lançar novamente ao mar. Parece fácil, não é? Foi o que pensei também.
O sol nasceu e já estávamos em cima da jangada. Até desenrolar a vela, armar a tranca (forquilha horizontal que dá sustentação à vela), recolher a âncora e se benzer foi tudo tranqüilo. O pior estava por vir.
Tomamos nosso farto desjejum a base de abacate amassado, tapioca e bolo de grude. Não confundam com bola de gude, que por aqui chama-se ‘bila’, mas o bolo é tão pesado e sem gosto quanto. Nisso já estávamos rumando para o ‘Barravento’, a faixa que fica no início do alto mar, onde o vento sopra sem piedade. Até aí tudo bem. Apesar dos solavancos, ‘sobes-desces’ daquela casquinha de ovo no meio do oceano, eu estava me comportando bem.
- Puxa o lastro para cá Paulista!
- Arraste essa cangalha para proa, Paulista!
- Peeeense! O Paulista se garante!
Dizia o mestre Uó todo animado. E eu lá, tentando me segurar, pois já começava me sentir um pouco enjoado, ou ‘mareado’, como dizem aqui.
Foi então que o café da manhã se revoltou dentro de mim e decidiu, contra minha vontade, fazer o caminho de volta. Enquanto isso, Zé de Nana gritava com seu sotaque carregado:
- Paulista, tu ‘raí’ ‘rê’ a ‘mundiça’ quando a ‘rente’ chegar no Barravento!
Desespero total. Se eu já estava daquele modo imaginei como ficaria no já temido Barravento. Não sabia como ia me safar dessa.
Escolhi um aconchegante saco de areia que servia de lastro, me debrucei nele e comecei a lançar todo meu recheio ao mar quando o Pirates chegou no meu ouvido e disse:
- Paulista, tu tem duas coisas a fazer: olhar para cima ajuda, caso não resolva, só resta a linha.
Como não entendi o que era ‘linha’, resolvi olhar para o céu, o que ajudou um pouco, mas quando chegamos no tal Barravento... Meu Deus! Lá o boi fugiu com a corda. Eu já era um homem liquidado e foi então que fiquei sabendo o que era a linha.
Concluindo, passei o resto da pescaria e cheguei de volta à praia dentro d’água, amarrado por uma corda, sendo puxado pela jangada. Não sei se era porque já tinha acabado tudo, mas assim que caí da água o enjôo se foi. Pode parecer história de pescador, mas a linha funciona mesmo.
Caso minha história seja publicada, gostaria de ser informado para ‘alugar’ meu sogro pedindo que me envie mais um exemplar do Jornal da Cidade para mostrar aos nossos amigos do Ceará. Abraços a todos e parabéns pela seção Pesca e Lazer, um espaço descontraído com histórias e notícias que recriam muito bem o universo dos amantes da pesca. Saudações!”
Pedro Ricardo Vogliotti é pescador e contador de história