01 de novembro de 2026
RELIGIÃO

Leia o artigo do Padre Charles: Vitória

Por Charles Borg | Especial para a Folha da Região
| Tempo de leitura: 2 min
Rivalidades persistem. Concorrências persistem. Intolerâncias persistem. A rede do apóstolo Pedro encontra-se rompida.

Vitória

“Das trevas para a luz”! Frase emblemática que emoldura o monumento dos reformadores protestantes na cidade de Genebra, Suíça! O imponente monumento retrata a austera figura dos quatro grandes mentores da reforma protestante – Calvino, Farel, Beze e Knox – e reproduz a frase bíblica que, segundo Calvino, sintetiza todo movimento reformador. Embute, evidente, ácida crítica ao catolicismo medieval considerado, não totalmente desprovido de razão, como período de trevas.
 
Verdade bíblica e inconteste axioma, a Igreja de Jesus Cristo está em constante caminho de purificação e perpétuo processo penitencial. Os reformadores protestantes saudaram o processo reformador e rejubilaram-se pela conquista da emancipação religiosa. Não conseguiam, todavia, evitar o surgimento de um novo processo de dominação religiosa.

A história confirma a repetição do triste enredo bíblico vivido pelo povo hebreu. Liberto de uma dura escravidão, pela poderosa mão divina, e instalado na terra prometida com o propósito de ser exemplo de uma vida digna e livre, o povo eleito – ou melhor suas lideranças religiosas e políticas – transforma os preceitos divinos em regime de escravidão religiosa.

As próprias orientações divinas destinadas a garantir dignidade e prosperidade acabam manipuladas por interesses humanos e transformadas em regime de dominação. 

A reforma protestante segue pelo mesmo caminho, engendra novos e sangrentos conflitos religiosos. As duas maiores congregações cristãs – católicos e protestantes – se envolvem em conflitos de agressões, represálias e concorrências que persistem até os tempos atuais. A anunciada aurora de luz não conseguiu, até hoje, vencer a longa noite de trevas. A absurda e incoerente rivalidade entre os credos cristãos, suscita, alimenta e sustenta novas formas de bipartidarismos perceptíveis na política, na economia, nos desportes, nos costumes. 

Rivalidades persistem. Concorrências persistem. Intolerâncias persistem. A rede do apóstolo Pedro, outrora intacta, encontra-se, hoje, rompida, lamentavelmente. A religião continua sendo instrumentalizada, usada como cabide para acomodar interesses sectários e dominadores. Enquanto persistir a luta pela hegemonia religiosa, as trevas continuarão tendo a melhor sobre a luz! Os cidadãos do mundo continuarão a ser privados da vida plena e prospera desejada pelo Criador e assegurada pela cruz do Divino Filho!

Sobre as igrejas cristãs – católicas, protestantes, evangélicas – tanto na condição de comunidades como de indivíduos, recai a grave responsabilidade e a inadiável missão de testemunhar que o amor a Deus e o respeito para com o irmão estão acima de qualquer ideologia, de qualquer sistema econômico, de qualquer projeto político, de qualquer ambição hegemônica. Somente a radical adesão ao mandamento da caridade será capaz de fazer a luz vencer definitivamente as sombras do medo, da divisão, da rivalidade.

Padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba.