As urnas deste domingo não decidiram apenas quem Campinas terá na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa a partir de 2027. Elas também produziram uma nova fotografia das principais forças políticas da cidade. Alguns nomes tradicionais preservaram espaço, outros cresceram de maneira expressiva e houve também quem saísse da eleição diante de um cenário bem mais complicado do que aquele existente há quatro anos.
Comecemos por dois personagens que atravessam praticamente todo este século como protagonistas da política campineira. Jonas Donizette (PSB) e Carlos Sampaio (PSD) estão reeleitos deputados federais. O ex-prefeito Jonas recebeu 97.335 votos no Estado, enquanto Carlão chegou a 91.902. Ambos garantiram novos mandatos em Brasília.
Os números contam histórias diferentes quando comparados a 2022. Jonas havia sido eleito naquele ano com 84.044 votos e, portanto, cresceu cerca de 16% na votação estadual. Sampaio recebeu 98.102 votos quatro anos atrás e agora, na primeira eleição em um novo partido, teve uma redução de aproximadamente 6%, embora suficiente para renovar o mandato. Dentro de Campinas, Jonas recebeu neste domingo 30.147 votos e Sampaio, 16.397.
O resultado preserva algo politicamente mais importante do que os números isolados: Jonas e Sampaio continuam com assento em Brasília e, consequentemente, com instrumentos institucionais relevantes para manter influência sobre a política campineira. São personagens de campos diferentes — Jonas hoje situado na centro-esquerda e base de Lula e Sampaio identificado com a direita e oposição ao PT —, mas ambos continuam sendo referências de grupos que há décadas participam das principais articulações da cidade.
Isso inevitavelmente terá reflexos no caminho até 2028. Não porque uma eleição federal determine antecipadamente a sucessão municipal, mas porque mandato significa estrutura, visibilidade, capacidade de articulação e presença institucional. Jonas e Sampaio passaram pelo teste de 2026 preservando exatamente isso.
A situação é diferente para Pedro Tourinho (PT).
Tourinho saiu da eleição municipal de 2024 fortalecido dentro do campo progressista. Terminou em segundo lugar na disputa pela Prefeitura, com 123.500 votos, ou 23,18% dos válidos, consolidando, naquele momento, uma posição de destaque na oposição municipal. Só que sumiu, o que um amigo chama de ‘efeito Marina Silva’. Dois anos depois, porém, voltou a enfrentar a dificuldade que já havia aparecido em 2022: transformar seu patrimônio eleitoral em Campinas numa cadeira própria na Câmara dos Deputados.
Neste domingo, Tourinho recebeu 73.627 votos no Estado e não foi eleito, ficando novamente na condição de suplente. O resultado não apaga os 123 mil votos da disputa municipal nem sua presença na política campineira, mas produz uma questão relevante para os próximos anos: como transformar uma liderança municipal já demonstrada nas urnas em real força eleitoral suficiente numa disputa estadualizada como a de deputado federal?
A pergunta ganha ainda mais importância porque, ao mesmo tempo em que Tourinho não conseguiu chegar a Brasília, outra liderança da esquerda campineira deu um salto eleitoral impressionante.
Mariana Conti (PSOL) foi eleita deputada estadual com 126.344 votos, quase três vezes os 43.988 que havia recebido quando disputou a Alesp em 2022. Mais importante: conseguiu aquilo que discutíamos antes da eleição como um de seus maiores desafios — furar a fronteira eleitoral de Campinas. A vereadora recebeu 44.372 votos na cidade, mas conquistou votos em 565 dos 645 municípios paulistas. São Paulo, por exemplo, entregou outros 23.426 votos à sua candidatura.
Esse desempenho muda a configuração do chamado campo progressista campineiro. Tourinho continua carregando o peso de ter alcançado 123,5 mil votos numa eleição para prefeito, mas Mariana passa a possuir algo que ele não conseguiu conquistar: vitória e, por consequência, um mandato parlamentar. São capitais políticos diferentes, que não precisam necessariamente competir entre si, mas que inevitavelmente alteram a distribuição de protagonismo dentro da esquerda local.
Mariana deixará a Câmara de Campinas depois de três mandatos consecutivos como vereadora, tendo sido a mais votada da cidade em 2020 e novamente em 2024. Agora chegará à Assembleia com 126 mil votos e uma base eleitoral muito mais espalhada pelo Estado do que possuía quatro anos atrás. Se Tourinho continua sendo uma referência eleitoral importante do PT e da esquerda campineira, Mariana sai de 2026 com um novo patamar institucional e eleitoral.
No outro extremo dessa fotografia aparece Rafa Zimbaldi.
Há dois anos, quando terminou a eleição para prefeito de Campinas com apenas 42.557 votos, ou 7,99% dos válidos, o resultado já representava uma mudança importante em relação ao espaço político que Rafa havia ocupado em outros momentos. Ele terminou muito distante de Dário Saadi, com 355.800 votos, e também de Pedro Tourinho, com 123.500.
Aquela votação poderia ser tratada apenas como um mau resultado numa eleição municipal. A eleição de 2026 acrescenta agora um segundo dado à análise: Rafa não conseguiu renovar seu mandato na Assembleia Legislativa. Não é possível decretar a partir disso o futuro de uma carreira política — a história está cheia de personagens que perderam eleições e depois reconstruíram seus espaços —, mas dois resultados consecutivos desfavoráveis inevitavelmente colocam novos desafios para sua posição no tabuleiro campineiro.
É uma diferença importante em relação aos demais personagens desta eleição. Jonas e Sampaio mantiveram suas cadeiras. Mariana conquistou uma. Tourinho não chegou ao mandato federal, mas ainda carrega a expressiva votação municipal de 2024. Rafa, depois dos 7,99% na disputa pela Prefeitura, agora também deixa a Assembleia.
As urnas, portanto, produziram movimentos bastante distintos.
Jonas e Sampaio preservam espaço e influência em Brasília. Mariana emerge desta eleição com um mandato estadual e uma votação de 126 mil votos que amplia consideravelmente sua dimensão política. Tourinho permanece como personagem relevante da esquerda campineira, mas volta a enfrentar a frustração de não transformar sua candidatura federal em cadeira própria. E Rafa recebe das urnas um segundo resultado consecutivo que exige uma nova leitura sobre seu espaço político.
Nada disso determina antecipadamente 2028. Dois anos são uma eternidade em política, alianças mudam e novos personagens aparecem.
Mas eleições deixam sinais. E a de domingo deixou alguns bastante claros sobre Campinas.
Os veteranos Jonas e Sampaio continuam no jogo. Mariana subiu de patamar. Tourinho terá de conviver com uma nova distribuição de protagonismo no campo progressista. E Rafa sai das urnas ainda menor.
O tabuleiro de 2028 ainda está longe de estar montado. Mas algumas peças importantes acabaram de mudar de posição.
Eleição para deputado tem uma característica particularmente cruel para quem já possui mandato municipal: ela oferece uma medida bastante objetiva sobre até onde vai a força eleitoral de cada nome para além dos limites que o elegeram vereador. Em Campinas, 11 parlamentares começaram a campanha de 2026 buscando uma cadeira na Assembleia Legislativa ou na Câmara dos Deputados. Dez chegaram ao domingo ainda como vereadores. Vini Oliveira (Cidadania), cassado pela Câmara no meio da campanha, chegou como ex-parlamentar. Quando as urnas foram fechadas, somente uma integrante daquele grupo havia conquistado o objetivo: Mariana Conti (PSOL).
Os números são eloquentes. Mariana terminou com 126.344 votos e foi eleita deputada estadual. Depois dela aparecem Higor Diego (Republicanos), com 37.999; Gustavo Petta (PCdoB), 33.311; Fernanda Souto (PSOL), 21.792; Débora Palermo (PL), 16.168; Vini Oliveira, 13.967; Nelson Hossri (PSD), 13.334; Luiz Cirilo (Podemos), 11.358; e Ailton da Farmácia (PSB), 7.770. Para deputado federal, Guida Calixto (PT) obteve 21.559 votos e Marcelo Silva (PP), 10.628. De 11 candidaturas originadas naquela Câmara, dez fracassaram.
Isso não significa que todas essas candidaturas possam ser colocadas no mesmo pacote. Existem campanhas destinadas efetivamente à eleição, outras que cumprem função partidária, ajudam a legenda ou federação a somar votos e algumas que servem para ampliar conhecimento do nome e preparar projetos futuros. E existe ainda um componente inevitavelmente pessoal: eleição também é teste de realidade. A urna pode confirmar a dimensão política que determinado personagem imagina possuir — ou apresentar um tamanho diferente daquele percebido dentro da bolha da política municipal.
Mariana passou por esse teste de maneira incontestável. Os 126 mil votos não representam apenas uma vitória eleitoral, mas demonstram capacidade de levar uma candidatura construída originalmente em Campinas para uma dimensão estadual. Foi mais de três vezes a votação de Higor, segundo colocado entre os vereadores candidatos à Alesp. Depois de ser a vereadora mais votada de Campinas em 2024, com 14.356 votos, Mariana deixa o Legislativo municipal para assumir uma cadeira efetiva na Assembleia.
Higor Diego talvez mereça uma análise diferente justamente porque sua candidatura carregava uma expectativa política particular. Ele não entrou na disputa apenas como o terceiro vereador mais votado de Campinas em 2024. Era uma das principais apostas do Republicanos e contou durante a campanha com apoio de setores importantes da base do prefeito Dário Saadi. Sua candidatura, portanto, funcionava também como um teste da capacidade desse grupo de transformar articulação política municipal em votação estadual.
Higor terminou com 37.999 votos. É importante colocar um dado na mesa: isso representa crescimento sobre os 30.783 votos que havia recebido quando disputou a Alesp em 2022. Portanto, não houve retração nominal. Mas crescimento e eleição são coisas diferentes. Para uma candidatura cercada de apoios relevantes dentro do grupo político predominante hoje na Prefeitura e na Câmara, o resultado não produziu o objetivo central: a cadeira na Assembleia.
E os números ajudam a localizar um dos desafios. Segundo os dados eleitorais levantados pela coluna, Higor concentrou mais de 13 mil votos na Zona Eleitoral 379, justamente onde está seu principal reduto, o Campo Grande. A força territorial continua evidente. A questão passa a ser outra: transformar uma liderança muito consolidada naquela região em presença eleitoral mais homogênea no restante de Campinas e, principalmente, ampliar a penetração fora do município. Seus 37.999 votos mostram que essa expansão aconteceu até determinado ponto, mas não em volume suficiente para elegê-lo.
Há ainda o episódio Smile. Higor apareceu em gravações relacionadas ao mesmo empresário que estava no centro do caso envolvendo Vini Oliveira. No caso de Higor, a Câmara chegou a receber pedido de Comissão Processante, mas não abriu o procedimento. Não existe elemento objetivo que permita medir quantos votos esse episódio eventualmente custou a Higor, e seria imprudente estabelecer uma relação automática. Politicamente, porém, é legítimo perguntar se a exposição produziu algum desgaste numa campanha que buscava justamente ampliar seu eleitorado para além da base tradicional.
Para Vini Oliveira, o contraste é muito mais dramático. Ele começou 2026 como o segundo vereador mais votado de Campinas na eleição municipal anterior e entrou na campanha estadual tentando transformar aquela votação numa candidatura à Alesp. No meio do caminho, tornou-se o primeiro vereador da história da Câmara campineira efetivamente cassado pelo plenário, após o processo decorrente das reuniões com representantes da Smile durante a licitação do transporte coletivo.
Menos de um mês depois, as urnas lhe deram 13.967 votos no Estado inteiro. Para alguém que havia recebido 11.423 votos apenas em Campinas para vereador em 2024, a dificuldade de expansão é evidente. Mais uma vez, não é possível afirmar sem pesquisa que o caso Smile e a cassação provocaram determinado tamanho de perda eleitoral. Mas seria igualmente impossível analisar politicamente a votação de Vini fingindo que a maior crise de sua curtíssima carreira, ocorrida justamente durante a campanha, não existiu. Ele saiu de uma eleição municipal como fenômeno eleitoral e chegou ao final desta campanha sem mandato e sem conseguir transformar aquele capital local numa votação estadual competitiva.
Outro resultado que merece atenção é o de Guida Calixto. A vereadora do PT recebeu 21.559 votos para deputada federal, sendo 9.709 deles em Campinas. Aqui existe uma peculiaridade política que permanece difícil de compreender: o PT campineiro chegou à disputa federal com Guida ao mesmo tempo em que Pedro Tourinho tentava novamente chegar à Câmara dos Deputados depois de ter saído da eleição para prefeito de 2024 como o nome petista de maior projeção eleitoral na cidade.
Não podemos simplesmente somar os votos de Guida aos de Tourinho e afirmar que seriam dele caso ela não estivesse na disputa. Eleitor não é propriedade de candidato e transferência automática de votos não existe. Mas é perfeitamente razoável questionar a estratégia. Duas candidaturas do mesmo partido, originadas na mesma cidade e disputando exatamente o mesmo cargo inevitavelmente competem, em algum grau, por segmentos semelhantes do eleitorado, estrutura partidária, militância, agendas e atenção. Tourinho não conseguiu se eleger novamente, enquanto Guida também ficou longe de uma cadeira. A matemática eleitoral não permite dizer que uma candidatura atrapalhou a outra; a política permite perguntar se essa fragmentação fazia sentido.
Os demais resultados também possuem leituras próprias. Gustavo Petta chegou a 33.311 votos; Fernanda Souto, a 21.792; Débora Palermo, a 16.168; Nelson Hossri, a 13.334; Luiz Cirilo, a 11.358; Marcelo Silva, a 10.628; e Ailton da Farmácia, a 7.770. Nem toda candidatura precisa ser analisada exclusivamente pela régua da vitória. Para alguns, existe missão partidária. Para outros, construção de recall, ampliação territorial ou preparação para 2028. E há candidaturas em que somente seus protagonistas poderão dizer qual era a expectativa verdadeira.
Mas existe algo que a urna faz melhor do que qualquer conversa de corredor da Câmara: retira da política a possibilidade de medir força apenas pela própria percepção. Número de seguidores, vídeos com milhares de visualizações, presença nas redes sociais, discursos barulhentos, articulações partidárias e influência dentro do Legislativo podem construir relevância política. Não significam necessariamente o suficiente para atravessar as fronteiras de Campinas.
Porque campanha pode produzir narrativa. Apoio político pode produzir expectativa. Rede social pode produzir impressão de popularidade. A urna produz outra coisa: voto.