Uma pesquisa divulgada no dia 9 de setembro pela Frente Parlamentar Mista da Educação, em parceria com o Equidade.info, revela que 27,3% dos estudantes do ensino médio no Brasil já fizeram apostas esportivas. O problema é que eles não poderiam estar apostando: no Brasil, menores de 18 anos são proibidos de utilizar plataformas de apostas. O levantamento ouviu 1.912 estudantes de 191 escolas de educação básica de todo o país e mostra que o contato com as bets começa cedo.
Aos 11 anos, 9,5% afirmam já ter apostado. Nos anos finais do ensino fundamental, entre 12 e 14 anos, 16,2% relatam ter feito apostas. Aos 17, o percentual chega a 32,3%. A diferença entre meninos e meninas também chama atenção. No ensino médio, 41% dos meninos dizem já ter apostado, contra 12% das meninas. Mais preocupante ainda: quatro em cada dez estudantes que apostaram não sabem dizer se ganharam ou perderam dinheiro.
E não estamos falando de pouco dinheiro. O Banco Central estimou que os brasileiros movimentaram entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões por mês em apostas no primeiro trimestre de 2025. Mantido esse ritmo, seriam até R$ 360 bilhões movimentados em um ano. O fenômeno ocorre em um país no qual cerca de oito em cada dez famílias estavam endividadas em julho de 2026, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor. Entre os apostadores, há ainda forte presença de pessoas de baixa renda.
O acesso dos adolescentes às plataformas é especialmente preocupante. As bets autorizadas não podem aceitar apostas de menores nem pagamentos com cartão de crédito. O Pix, porém, tornou-se uma das principais formas de movimentar dinheiro nesse mercado. Na prática, um adolescente pode tentar utilizar a conta, o celular ou os dados de um adulto, além de recorrer a plataformas clandestinas que não cumprem as exigências de identificação.
Por isso, os pais precisam estar atentos. Conferir movimentações bancárias, transferências via Pix, aplicativos instalados no celular e notificações de pagamentos pode revelar um problema antes que ele se transforme em uma dívida. Também é importante verificar se a plataforma utilizada é autorizada: no mercado regulado, os sites legais usam o domínio .bet.br.
O perigo não é apenas teórico. Um jovem que se tornou dependente das apostas esportivas acumulou mais de R$ 100 mil em dívidas, tomou empréstimos e chegou a recorrer a agiotas. A família só percebeu a dimensão do problema quando um cobrador apareceu na casa. É assim que o ciclo pode começar: perde-se R$ 20 e tenta-se recuperar; perde-se mais e acredita-se que a próxima aposta resolverá tudo. Uma eventual vitória alimenta a ilusão de que existe uma fórmula para ganhar. E ela não existe.
O dado mais assustador da pesquisa talvez seja justamente este: alguns adolescentes nem sabem quanto perderam. Cabe ao Estado fiscalizar as plataformas e às empresas impedir efetivamente o acesso de menores. Aos pais cabe uma tarefa igualmente importante: educar e vistoriar o que os filhos andam fazendo com seus celulares. Porque algumas apostas começam com R$ 5. Mas terminam colocando em risco o dinheiro, a integridade do apostador, a tranquilidade e o futuro da família inteira.
Ayne Regina Gonçalves Salviano é jornalista, professora e mestre em comunicação e semiótica, com MBA internacional em gestão executiva