Certa vez, debaixo de um sol de rachar coquinho, me vi caminhando numa praia semideserta e sem boné. Quase cozinhando o miolo eis que surge milagroso ambulante oferecendo o “legítimo Chapéu Panamá”, que adquiri sem hesitação. Era bem parecido com o autêntico, aquele, para quem não sabe, produzido originariamente no Equador, feito à mão com exclusiva palha (paja toquilla) e vendido aos montes aos trabalhadores que construíam o Canal do Panamá, no início do século passado. Só pegou fama mundial com esse nome quando o presidente americano Theodore Roosevelt visitou a monumental obra em 1906 e usou o modelito — porque era necessário — para proteger sua acentuada careca do abrasivo sol caribenho. Usou apenas uma vez e foi o suficiente.
Bem mais tarde, flanando distraído sob escaldante insolação nas mágicas areias do Sahy, encontrei-me na obrigação de comprar – também porque era necessário – mais um exemplar do famoso chapéu panamá, nitidamente de origem incerta, mas jurado genuíno (ôpa!) pelo oportunista vendedor. Autêntico mesmo só logrei (êpa!) obter na bela Playa Azul de La Boquilla, perto de Cartagena de Índias, na Colômbia, de um milongueiro local que garantiu a origem exibindo orgulhoso o selo preto “Hecho en Ecuador”, preso por dentro do chapéu. Agora sim, acreditei!
Digo isso porque anda muito me intrigando o uso constante desse extraordinário adereço por um destacado político nacional, sob desculpa de proteger seu cocuruto da insolação depois de extrair um cisto. Para meu parco conhecimento medicinal, tomei conhecimento de que a pequena erupção era um carcinoma basocelular muitíssimo comum num pais tropical como o nosso e que é “bonito por natureza”, como diria Jorge Benjor. Tirou, zerou! Por precaução o médico recomendou evitar isolação por um mês, em abril passado, com uso de chapéu, se necessário. Bastaria aplicar um dedinho de cicatrizante à noite e outro de protetor solar fator 60, pela manhã, não só para recuperar o couro cabeludo –não tanto – como para bloquear a radiação infravermelha. Já estaria faz tempo são e salvo, como milhões de brasileiros de cabeça quente.
Então, informo, eu também tenho um Panamá verdadeiro. Os outros dois são flagrantemente falsos! Mas só para caminhar na praia do Sahy, onde o mantenho disponível, para cobrir minha cabeça da pré-calvice anunciada e também minhas já sensíveis orelhas e nuca, evitando o carcinoma basocelular. Uso exclusivamente sob sol, jamais à noite, em ambientes fechados, eventos públicos, auditórios ou palácios, que, por sinal, não frequento.
É sócio de Jeremias Alves Pereira Filho Advogados Associados. Especialista em direito empresarial e professor emérito da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Araçatubense nato