Ingredientes
Uma delícia dourada pode nascer da boca quente do forno e dos afetos, sobretudo em tardes cujo único compromisso seja com a doçura. Falo do bombocado, síntese mimosa de tudo o que a nossa cozinha guarda de mais terno e acolhedor. Fruto de união quase improvável e mais que perfeita, a do coco ralado e a do queijo curado, é iguaria que repousa na boca como uma promessa cumprida e sutis traços históricos a lembrarem o Nordeste e as Minas Gerais.
Quando ele está assando, a casa inteira para a fim de respirar o aroma que se espalha na mescla de açúcar, manteiga e memórias guardadas. Pelo visor do forno os olhos captam o lento dourar da gostosura que denuncia a crosta sutil - quase imperceptível ao olhar, mas levemente resistente ao toque - que vai se formando para proteger o miolo macio, úmido e densamente aveludado.
É partir o primeiro pedaço para estar diante de uma revelação. A ponta da faca encontra resistência superficial que cede sem esforço e mostra o interior cremoso que vai se desfazer no palato. A experiência reconfortante não raro desencadeia lembranças. Podem vir da infância, quando ele nos foi apresentado pela primeira vez. Ou de viagens marcadas por brisas e sol.
Herança viva dos velhos cadernos de receita, manchados pelo tempo e pelo uso, passados de geração em geração como um tesouro afetivo, o bombocado é sedutor e irresistível. Acompanhado por um café fresco, fumegante e recém-passado no coador, confere alegria ao momento sagrado de restauro e apreciação do que nosso paladar aprova sem restrições. A combinação é perfeita: o gosto amargo do grão envolve a riqueza densa do doce, convidando o pensamento a desacelerar e a apreciar o instante.
E se há item do cardápio brasileiro que honra com absoluta maestria o nome que carrega, este é o bombocado. Bons bocados servidos em pequenas e inesquecíveis porções douradas não necessitam de adornos para brilhar; basta-lhes a simplicidade reluzente. São como bons poemas que dizem muito em formas simples mas impactantes.
Existem diversas formas de fazer bombocado. Já experimentei várias. Esta que mostro aqui é das mais práticas e me foi ensinada pela colega do ‘Viver Bem’, a Evanilda, a quem agradeço. Basta reunir todos os ingredientes no copo do liquidificador, com exceção do fermento. Bater por dois minutos e só então juntá-lo, mexendo (e não mais batendo) com colher até agregá-lo completamente. Colocar em assadeira retangular média untada e polvilhada. Levar ao forno preaquecido por quarenta minutos. Desenformar só depois de bem frio porque o interior permanece mole por algum tempo. Cortar em quadradinhos e servir com café.