Manchete publicada nesta Folha, no último dia 27, chamou a atenção para um problema: a falta de professores na rede municipal de Araçatuba. Há vagas em disciplinas como matemática, educação física e artes. O número de profissionais afastados, principalmente por motivos de saúde, tem crescido enquanto a reposição não acompanha a necessidade das escolas. Segundo a Secretaria Municipal de Educação, a administração tem procurado alternativas. Uma delas é ampliar a jornada dos professores que já integram a rede.
Também estão sendo convocados candidatos aprovados em concursos públicos e processos seletivos. Ainda assim, nem sempre há profissionais disponíveis para preencher todas as vagas. O que acontece em Araçatuba está longe de ser um problema isolado. O Brasil caminha para um preocupante apagão de professores. Dados do Inep mostram a dimensão do desafio: para atender à demanda, seria necessário formar 57% mais professores de Matemática, por exemplo.
Mas não se trata apenas de formar mais pessoas para o magistério. É preciso entender por que tantos jovens não querem seguir essa carreira e por que tantos professores deixam as salas de aula. Ser professor tornou-se uma profissão cada vez mais difícil. Além de dominar o conteúdo, preparar aulas, corrigir atividades e acompanhar a aprendizagem, o docente precisa lidar diariamente com indisciplina, conflitos, ameaças, agressões, pressão de famílias, excesso de tarefas burocráticas e uma cobrança crescente por resultados, tudo isso ganhando pouco, muito pouco.
Os números da rede estadual paulista dão uma ideia do tamanho do problema. No primeiro semestre de 2025, 14,32% da carga total de aulas deixou de ser ministrada em razão da ausência de professores. O impacto que a falta de profissionais provoca no cotidiano das escolas é gigantesco. Ainda assim, o magistério vem sendo tratado como se fosse uma profissão inesgotável. Não é. Professor adoece. Cansa. Sente medo. Chega ao limite. E desiste.
É preciso, portanto, olhar para o caso de Araçatuba com a atenção que ele merece. A falta de professores não pode ser tratada apenas como uma questão administrativa a ser resolvida pela Secretaria de Educação. É um problema que diz respeito a toda a sociedade. E a violência nas escolas precisa entrar definitivamente nessa discussão. Não há valorização profissional quando o professor trabalha sob ameaça, é desrespeitado ou precisa enfrentar diariamente situações que comprometem sua saúde física e emocional.
Por isso a mudança precisa começar dentro de casa. Pais devem ensinar aos filhos que professor não é inimigo. Alunos precisam compreender que liberdade não significa desrespeito. Uma sala de aula não funciona quando aquele que ensina tem medo daqueles que deveria educar ou de seus pais. Por isso, é preciso cobrar dos prefeitos, vereadores, governadores, deputados e do Ministério da Educação. Cobrar concursos, salários dignos, planos de carreira, segurança nas escolas, assistência à saúde e políticas permanentes de valorização do magistério.
Porque, quando falta um professor, não falta apenas alguém para preencher um horário. Falta alguém para ensinar e preparar o futuro. O apagão de professores não chegará de repente, com escolas fechando as portas. Ele está se instalando aos poucos: uma vaga que demora a ser preenchida, uma licença médica sem substituto, uma disciplina sem aulas, um profissional que abandona a carreira, um jovem que escolhe outra profissão. É assim, silenciosamente, que uma sociedade perde seus professores. E quando uma sociedade perde seus professores, perde também seu próprio futuro.
Ayne Regina Gonçalves Salviano é jornalista e professora; mestre em comunicação e semiótica com MBA Internacional em gestão executiva