Ame e faça o que quiser! Célebre frase elaborada por Santo Agostinho e que condensa de forma precisa e programática toda atividade cristã. Exalta sobremaneira a nobre missão do discípulo de Jesus Cristo que quer ser reconhecido como tal não tanto pelo certificado do batismo, mas principalmente pelas escolhas que realiza no cotidiano da vida. Age com caridade não quem cataloga o próximo, mas quem, na prática, se faz próximo!
Muitos são os feridos no atual contexto do mundo e do país! Age com caridade quem fica incomodado com o sofrimento alheio. A crônica da Igreja Católica, sem ufanismos, está marcada por nobres e heroicas iniciativas voltadas para assegurar dignas condições de sobrevivência ao ser humano ferido de múltiplos males. Com a chamada revolução industrial, no fim do século XVIII, toma forma nova espécie de sofrimento humano, a exploração da mão de obra. No encalço da industrialização, expande-se a migração para centros urbanos, mudando radicalmente culturas e estilos de sobrevivência.
Avança nova forma de sofrimento na guisa da exploração da mão de obra, da precariedade de domicílios e do acesso aos bens da terra, condicionados progressivamente à infame economia de mercado. O referencial que pauta o convívio e o acesso ao que se produz deixa de ser as urgências básicas do cidadão, e passa a ser o ganho pecuniário. Muda compreensivelmente o referencial ético. Aprovada e incentivada é a iniciativa lucrativa, mesmo que engendra sofrimentos, privações e humilhações para sem número de pessoas.
O preceito moral de amar o próximo obrigatoriamente interpela o autêntico discípulo de Jesus Cristo. Passar ao largo, cuidando das obrigações rituais denuncia indigência moral crassa. Urge reler, e com urgência, a Palavra de Deus e reajustar seu entendimento. A mesma recomendação fica reservada aos que obedecem o preceito religioso de ir á Missa sem contudo ajustar seus valores e regimes de vida. Participa-se da Eucaristia para revestir-se da caridade de Jesus Cristo que andou fazendo o bem por onde passava. A caridade de Cristo empurra, interpela, compromete!
Ficar indiferente diante dos clamores de tanta gente que suplica condições dignas de vida merece, certamente, severas reprimendas do Mestre! Achar que a Igreja nada tem a ver com isso, que as comunidades de discípulos não devem se envolver com questões sociais, é desqualificar a identidade e a missão prioritária que Jesus confia a seus seguidores. O Evangelho de Jesus Cristo é divino justamente porque é profundamente humano.
Diferente do assistente social, o discípulo de Jesus Cristo se envolve com o ferido à beira da estrada motivado prioritariamente pelo desafio programático do Mestre: tudo o que fizerem ao menor dos irmãos é a mim que o façam! Os muitos cristos sem Teto, sem Trabalho, sem Terra (TTT) não querem esmola. Querem justiça. Querem dignidade. Somente quem ama, faz o que é preciso!
O padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba