Não é feita de qualquer barro. Para quem nunca ouviu falar trata-se de jarro elaborado a partir da argila porosa - empastada, emoldurada e queimada - para armazenar água fresca e potável. Possibilita evaporar lenta e levemente pelos poros do lado de fora, diminuindo a temperatura interna da água conservando sua qualidade e propriedades terapêuticas. Já era usada na antiguidade pelos povos egípcios e mesopotâmicos e, mais tarde, pelos africanos e indígenas. Apenas cerca de 5 mil anos!
No Brasil os povos originários, por coincidência científica ou descoberta múltipla ou, ainda, invenção simultânea, conheciam a técnica e moldavam suas próprias moringas, antes mesmo de conhecer a denominação pelos portugueses colonizadores, que lá na sua terrinha a chamavam de “bilha d’água” ou “talha”, equivalente a um jarro grande. Assim, apenas transportaram para cá um utensílio que já era utilizado pelos “nossos índios”, que de ignorância não tinham nada, senão muita sabedoria. Os Incas já moldavam jarros de cerâmica desde cerca de 1.200 anos AC...
Nem imaginavam que os africanos escravizados igualmente conheciam a técnica de emoldurar barro para suas próprias moringas, ou Udu, no dialeto Ibo da Nigéria, entre inúmeros outros falados na África. Aqui acabaram assimilando a denominação local de moringa, que, ao contrário do que pensa o distraído leitor, não tem origem indígena. A sonora palavra provem da mistura de línguas africanas da família banto, no português falado no Brasil colonial.
Fato é que, à época, tornou-se utensílio indispensável para conservar água potável fresca, num processo natural conhecido por “resfriamento evaporativo”. Prodígio científico de alta funcionalidade, pois além de refrescar e purificar a água, adensando resíduos na base do pote, faz com que a argila libere pequenas quantidades de minerais saudáveis. Como se vê, a moringa não é só bonita...
Por essas bandas, muito tempo depois, uma família pioneira se destacou na arte de produzir moringa misturando artesanato com produção industrial, sem jamais perder a qualidade de origem. E tudo começou há 90 anos com um menino imigrante italiano da Perugia, o então rapagote e empreendedor Antonio Corbucci.
PS: mais água vai rolar na moringa, que ora não se esgota.
Sócio de Jeremias Alves Pereira Filho Advogados Associados. Especialista em direito empresarial e professor emérito da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Araçatubense nato