Enquanto o Brasil colhia a maior safra de grãos da sua história, 346 milhões de toneladas em 2025, parte do diesel que moveu essa colheita chegou de navio, desembarcou no litoral e cruzou o país até encontrar a lavoura no fim da linha[1]. A cena expõe uma distorção antiga, agravada década após década, na medida em que a produção avançou sobre o interior do Brasil, ao passo que a estrutura para abastecê-la permaneceu ancorada na costa.
Coube ao refino, no entanto, uma trajetória em sentido contrário, porque ele nasceu colado aos portos e só amadureceu de fato no interior de São Paulo, que provou, com a maior refinaria do país, que processar petróleo longe da costa não tem nada de utópico. Esse exemplo, porém, virou exceção e não regra, diante do fato de apenas dez das vinte e sete Unidades da Federação abrigarem uma refinaria[2].
Transportado pelos corredores logísticos terrestres desde o litoral, o diesel que move uma colheitadeira no interior atravessa meio país antes de encontrar quem vai queimá-lo, e cada quilômetro dessa viagem encarece o frete, castiga rodovias esgotadas e devolve ao produtor um combustível mais caro.
A segunda fonte de energia mais consumida no país e responsável por cerca de 17,2% do consumo final[3], o diesel move o transporte rodoviário que escoa a safra, e é justamente nele que a dependência externa mais pesa. Um quarto do diesel e um décimo da gasolina A queimados em 2024 vieram de fora[4], o que entrega ao humor do mercado internacional o insumo do qual o Brasil menos pode abrir mão.
Poucos contrassensos incomodam tanto quanto ver um dos maiores produtores de petróleo do mundo dependente do estrangeiro para o próprio abastecimento, sobretudo diante das projeções do Plano Decenal de Expansão de Energia 2035 (PDE 2035), elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), segundo as quais a produção nacional deverá alcançar cerca de 5 milhões de barris por dia em 2035, com mais da metade do petróleo brasileiro destinada à exportação ao longo do decênio[5]. Ao exportar óleo cru e reimportar derivados de maior valor agregado, o Brasil abre mão de empregos, arrecadação, investimentos industriais e competitividade.
Choques recentes de preço no mercado internacional, puxados por tensões geopolíticas, não chegaram a provocar um apagão de combustível, mas escancararam o tamanho da exposição brasileira, e a lição é difícil de contornar, a de que segurança energética não pode ficar refém da boa vontade alheia. Um país soberano no abastecimento produz e distribui o que consome sem prender a respiração a cada crise do outro lado do mundo.
No fundo, o diagnóstico não divide governo, técnicos e mercado, que há tempos concordam que aproximar o refino de quem consome barateia a logística e reduz a dependência externa. O que emperra não é a falta de consenso, e sim a falta de decisão.
Persiste, ainda assim, o falso dilema entre o público e o privado, e ele só adia a conversa que interessa. Uma Petrobras forte e um setor privado competitivo não disputam o mesmo palmo de chão, ocupam frentes distintas do mesmo objetivo, o de aumentar a capacidade de refino, estimular a concorrência e devolver ao país algum controle sobre o próprio abastecimento.
Tirar isso do papel exige mais do que discurso, e depende de regras estáveis, de acesso ao petróleo nacional em condições justas e de segurança jurídica para quem topar erguer uma refinaria onde o consumo cresce mais rápido que a oferta. O retorno é conhecido de quem já viu uma dessas nascer numa cidade média, o comércio aquece, chega mão de obra qualificada e a prefeitura descobre uma arrecadação que antes só passava de caminhão.
Nesse ponto, o interior de São Paulo, que abriga a maior refinaria do País, volta a mostrar o caminho ao receber projetos como o da SSOil Energy, localizada próxima a um dos grandes corredores do agronegócio, sinalizando uma trajetória consistente para fortalecer a segurança energética e reduzir custos logísticos, ao mesmo tempo em que impulsiona o desenvolvimento regional.
O crescimento do agronegócio, da indústria e da logística mudou definitivamente o mapa do desenvolvimento brasileiro. Levar o refino até onde a economia chegou não é só questão de eficiência, é escolha de soberania. Afinal, um dos maiores produtores de petróleo do mundo, ao permanecer dependente da importação de derivados, renuncia à capacidade de determinar os próprios rumos energéticos.
No fim, isso não é apenas uma agenda para o setor de refino. É uma agenda para o desenvolvimento do Brasil.
Evaristo Pinheiro é Diretor-Presidente da RefinaBrasil
[1] Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/45674-safra-de-2025-e-recorde-e-previsao-para-2026-e-1-8-menor.
[2] Disponível em: https://app.powerbi.com/view?r=eyJrIjoiMjUyZDAwNDctMjU2Ni00OTI5LWFkM2QtN2IyYWI4ZWFhYjUxIiwidCI6IjQ0OTlmNGZmLTI0YTYtNGI0Mi1iN2VmLTEyNGFmY2FkYzkxMyJ9.
[3] EMPRESA DE PESQUISA ENERGÉTICA (EPE). Balanço Energético Nacional 2025: Relatório Síntese, ano base 2024. Disponível em: https://www.epe.gov.br/sites-pt/publicacoes-dados-abertos. Acesso em: 5 ago. 2026. p. 21.
[4] Disponível em: Disponível em: https://www.gov.br/anp/pt-br/canais_atendimento/imprensa/noticias-comunicados/pais-teve-comercializacao-de-mais-de-130-bilhoes-de-litros-de-combustiveis-em-2024.
[5] EMPRESA DE PESQUISA ENERGÉTICA (EPE). Plano Decenal de Expansão de Energia 2035: Caderno de Abastecimento de Derivados de Petróleo. Disponível em: https://www.epe.gov.br/sites-pt/publicacoes-dados-abertos. Acesso em: 5 ago. 2026. p. 16 e 21.