“Quem ama, olha”! Pelo olhar é que se descobre a quem se ama e como se ama! O olhar acusa, igualmente, indiferenças e descasos! Educado na Palavra de Deus, o olhar humano enxerga na criação, na humanidade e em cada ser humano a obra divina. A bondade original enxertada em cada criatura não esconde, no entanto, a misteriosa, e não raramente, indigesta presença da maldade. Contínua é a tensão entre essas duas forças. E o bem estar da humanidade, sua felicidade, depende essencialmente da energia dominante! Humanidade tão inteligente e, ao mesmo tempo, tão insensível.
Um abismo é o coração humano! Inevitavelmente salta a angustiante pergunta: estaria o elemento bondoso presente em cada ser criado, inclusive em cada ser humano, fatalmente condenado a ser destruído pelas sementes maldosas? “Quem ama, olha”! Em nenhum momento na conturbada história da humanidade houve situações totalmente trágicas. Em sua obra magistral – Guernica – o pintor Picasso retrata o horror da revolução espanhola.
No conjunto de corpos dilacerados a denunciar a impiedosa dor de milhares de seres humanos inocentes, o iluminado pintor encontra um jeito para lembrar enfaticamente que nem tudo está perdido. Uma vela acesa, quase imperceptível, na base da pintura anuncia a esperança. Em meio àquele sanguinário contexto uma tênue luz, frágil é verdade, teima brilhar! A maldade pode muito, mas não pode tudo.
O medo devasta, mas não aniquila a esperança! Emerge a força e a necessidade de aprender olhar! Caso se foque unicamente a maldade, resigna-se ao fatalismo. Cede-se à desesperança. Desiste-se de lutar! Se, ao contrário, convence-se de que há uma bondade latente na criação, na humanidade e em cada ser humano, arregaçam-se as mangas e se põe a lutar. Nenhum ser humano é totalmente mau! Nem o egoísmo, nem a ambição, nem a paranoia bélica possuem tamanha força capaz de apagar a bondade presente no coração humano.
Emerge a receita ideal para reverter o processo de disseminada desesperança que toma conta de grande parcela dos humanos: reajustar o foco. A propagada maldade será vencida somente quando se passa a investir na latente bondade humana. O que precisa mudar não é o ambiente. Estéril equívoco querer que o outro mude! O que realmente importa é revisar a maneira de enfrentar os desafios! Urge treinar o olhar a notar as múltiplas boas qualidades presentes no outro e a difundir os corajosos gestos de atenção praticados no cotidiano da vida.
Entre as camas de doentes desenganados sempre circulam olhares carregados de ternura! São miúdas velas acesas em meio a dramáticas situações, tênues luzes com enorme potencial de contágio! Sabido é que o mais importante não é realizar grandiosas obras. Impacta o pequeno gesto de atenção e cuidado realizado com amor. Gestos humanos praticados com espontaneidade e com alegria carregam o potencial de redimir a humanidade. É só olhar com amor! Quem ama, olha!