O caminho faz o caminhante! À medida que a viagem avance, o caminhante vai progressivamente descartando elementos supérfluos, trocando-os por outros que se impõem úteis. Viaja-se bem quando leve se viaja! Observa-se, no atual estágio da história, que os acontecimentos no mundo estão tornando a caminhada dos cidadãos especialmente preocupante e penosa.
Alguns fatores são facilmente identificáveis. De um lado, a ambígua concepção de poder político, transformado por algumas lideranças em progressivo exercício de egolatria. E exibição de força! Quando campeia o individualismo a rivalidade se acentua. O compreensível distanciamento gerado por injustificáveis conflitos alimenta, por sua vez, o indiferentismo, outra tendência nefasta que marca a conduta de inumeráveis cidadãos.
A procura mórbida por espaço, a necessidade premente de ser reconhecido e aclamado absorvem o tempo, o pensamento e as energias dos indivíduos a tal ponto a transforma-los em espectadores neutros das situações circunstantes. Reconhece-se o caos reinante. Poucos, todavia, se habilitam para corrigir rumos.
Corrigir rumos e pessoas é bem mais fatigoso que corrigir textos, por exemplo. O desafio, como se sabe, é bem mais complicado e exigente. Pessoas não são maquinas. Têm personalidade. Têm convicções. Têm sentimentos! Têm desconfianças! De mais a mais, na atual mentalidade meritocrática, costuma-se confundir infração e infrator. Deslizes são frequentes e comuns, nem sempre, todavia, motivados por maldades.
Corrige-se, muitas vezes, como se o superior nunca tivesse errado. Carece-se na abordagem a compaixão solidária, a consciência da própria condição de ser limitado. Abordagens altivas não mudam vidas. Criam, não raramente, ressentimentos. Nos famosos doze passos de reabilitação entre adictos, a primeira condição necessária e indispensável para alguém integrar o grupo, é a consciência do próprio vício.
Entre os membros prima a consciência de que, naquele círculo, todos são iguais. Derruba-se a nefasta hipocrisia! Resgata-se o respeito. Emerge que no processo de reabilitação, sabedoria, humildade e clara noção de perspectivas são predicados indispensáveis para quem se põe à tarefa de reorientar a vida do semelhante. É preciso aprender a respeitar a individualidade de cada pessoa, sem rígidos cronogramas, sem lineares estratégias.
Urge auxiliar as pessoas a reencontrarem seus rumos nesse conturbado tempo, marcado por exacerbados egocentrismos e por complacentes indiferenças. Urge caminhar junto. Corrigir é tarefa de todos, sem arrogâncias.
em ares de superioridade. Compenetrados no destino a ser alcançado, intuem os caminhantes que é o próprio caminho a induzir o itinerante a ajustar pesos, ritmos e repousos. Humildes, corrigem-se entre si com a autoridade do amor. Sábios, emendam-se entre si com a resiliência da paciência!
Padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba.