24 de maio de 2026
OPINIÃO

Os perigos de errar na internet

Por Ayne Salviano | especial para a Folha da Região
| Tempo de leitura: 3 min

Quem nunca cometeu um erro e se arrependeu depois? A diferença é que, antes da internet, havia algo próximo ao esquecimento natural. Gafes e escândalos perdiam força com o tempo e, no máximo, tornavam-se histórias restritas ao convívio pessoal. Hoje, essa dinâmica mudou profundamente. As gerações que cresceram conectadas enfrentam um cenário em que qualquer deslize pode ganhar proporções massivas. Um comentário impensado, uma foto inadequada ou uma opinião antiga podem viralizar, gerar exposição pública e até levar ao chamado “cancelamento”.

Mais grave ainda é o fato de que esses registros permanecem acessíveis por tempo indeterminado, por meio do chamado “print eterno”, mesmo quando a pessoa já mudou, amadureceu ou reconstruiu sua trajetória. Nesse contexto, surge o debate sobre o direito ao esquecimento. Trata-se, em termos gerais, da possibilidade de limitar a exposição pública de fatos passados, ainda que verdadeiros, quando sua divulgação causa prejuízos desproporcionais. Esse direito está relacionado à proteção da vida privada, da intimidade e da honra, garantidas pela Constituição brasileira.

Embora o Supremo Tribunal Federal tenha entendido que não existe um direito ao esquecimento amplo e irrestrito, a Corte reconheceu a necessidade de analisar situações concretas em que há abuso ou violação da dignidade humana. Na prática, porém, aplicar esse equilíbrio no ambiente digital é um grande desafio.

Antes da era digital, era possível reconstruir a própria identidade ao longo da vida. Hoje, esse processo é dificultado pela permanência dos dados na rede. Ferramentas de busca e sistemas baseados em inteligência artificial permitem recuperar conteúdos antigos com facilidade. Comentários esquecidos, publicações em redes sociais desativadas ou vídeos antigos podem reaparecer anos depois, muitas vezes fora de contexto.

Casos de vazamento de imagens íntimas ilustram bem esse problema. Muitas vítimas tiveram suas vidas profundamente impactadas por conteúdos que continuam circulando, mesmo após tentativas de remoção. No Brasil, episódios como o da atriz Carolina Dieckmann contribuíram para a criação de leis específicas contra crimes digitais. Ainda assim, eliminar completamente esse tipo de material da internet segue sendo difícil.

Mais recentemente, a inteligência artificial trouxe um novo risco: a criação de conteúdos falsos altamente realistas, conhecidos como deepfakes. Diferentemente dos registros antigos, que ao menos correspondiam a fatos reais, os deepfakes fabricam situações que nunca aconteceram. Mesmo assim, podem comprometer reputações, gerar constrangimento e causar danos profissionais e pessoais.

No Brasil, mulheres têm sido alvo frequente desse tipo de violência digital, com a criação de imagens íntimas falsas. Além disso, qualquer pessoa pode ser atingida. Um profissional pode ter sua imagem manipulada em um vídeo que sugira comportamento inadequado. Ainda que a falsidade seja comprovada posteriormente, o impacto negativo pode ser duradouro, já que a informação falsa tende a se espalhar mais rapidamente do que a correção.

Outro ponto crítico é a exposição sem consentimento desde a infância. O compartilhamento de imagens de crianças por familiares nas redes sociais, prática conhecida como “sharenting”, cria um histórico digital que essas pessoas não escolheram ter. No futuro, esse conteúdo pode gerar constrangimentos ou prejuízos. O que está em jogo é a própria capacidade de transformação do indivíduo. Errar, aprender e seguir em frente sempre foi parte essencial da experiência humana.

No ambiente digital, porém, erros e até informações falsas podem permanecer acessíveis indefinidamente, afetando oportunidades e relações. Diante desse cenário, torna-se urgente investir em educação digital. É fundamental ensinar noções de privacidade, reputação online e uso responsável da tecnologia desde a escola até a vida adulta. Em um mundo em que a memória digital é praticamente infinita, agir com consciência deixou de ser uma escolha. É uma necessidade.

Ayne Regina Gonçalves Salviano é jornalista e professora. Mestre em comunicação e semiótica com MBA em gestão educacional