09 de maio de 2026
ARTIGO

Procura-se Mães

Por Ayne Salviano | Especial para a Folha da Região
| Tempo de leitura: 3 min
Os hormônios farão você rir, chorar, sentir raiva, sentir amor, sentir fome e experimentar tudo isso ao mesmo tempo

Informamos a abertura de processo seletivo para mulheres interessadas na carreira de mãe. A candidata selecionada será responsável por alimentar, limpar bumbum, educar, proteger, amar e impedir o mini ser humano de, por exemplo, colocar o dedo na tomada, lamber o chão do restaurante ou comer a areia da caixa do gato.

Ao aceitar a vaga, o corpo da mulher que também desejar gerar e parir entrará oficialmente no modo “Transformers”. O bebê crescerá enquanto seus órgãos iniciarão uma mudança digna de caos. O estômago sobe. A bexiga desce depois de ser esmagada. O pulmão aperta. O intestino dá nó. A coluna pede socorro. E o fígado reclama o tempo inteiro. Enquanto isso, o útero cresce e cresce muito.

Você ganhará peso. Muito peso. Peso físico. Peso emocional. Peso psicológico. Seu centro de equilíbrio desaparecerá. Levantar da cama passará a exigir estratégia militar, impulso lateral, fé e, talvez, ajuda de um guindaste. Amarrar o sapato? Missão impossível. Os pés incham. As mãos incham. O rosto incha.

Umas coisas esquisitas também podem acontecer. Você poderá desejar lasanha às 3h17 da madrugada, querer manga com ketchup, sentir necessidade emocional de pão de queijo e chorar porque acabou o sorvete. Seu cérebro funcionará assim: “Quero chocolate.” Cinco segundos depois: “Não quero mais.” Dois minutos depois: “Por que não me trouxeram um chocolate ainda?”.

Os hormônios farão você rir, chorar, sentir raiva, sentir amor, sentir fome e experimentar tudo isso ao mesmo tempo. Dormir será uma experiência semelhante a tentar estacionar um ônibus em uma vaga de bicicleta, girar uma baleia na cama ou fazer acrobacias olímpicas usando travesseiros. E, quando finalmente encontrar uma posição confortável, o bebê iniciará um campeonato de karatê interno. Seu filho chutará a costela, a bexiga, o estômago e lugares que a ciência ainda não identificou.

Você fará xixi antes de dormir, depois de deitar, durante a madrugada, ao levantar, ao rir, ao espirrar e até ao ouvir água. A bexiga passará a funcionar como um Wi-Fi ruim: não dá para confiar. O parto será uma mistura de maratona olímpica, filme de ação, gritos de guerra, treino pesado de academia, milagre e força sobrenatural.


Mas todas as mães, as de útero e as de coração, ao assumir o cargo acumularão as seguintes funções: Babá, cozinheira, nutricionista, lavadeira, passadeira, faxineira, organizadora profissional, professora de matemática, professora de português, professora de ciências, professora de história, professora de educação artística.

Mães também atuarão como psicóloga, terapeuta, conselheira sentimental, enfermeira, motorista, guarda-costas, segurança particular, salva-vidas, investigadora, detetive, juíza de brigas, diplomata da vizinhança, mediadora de conflitos, contadora, administradora financeira, costureira, estilista, cabeleireira, animadora de festas, contadora de histórias, cantora de ninar e palhaça profissional.

Há cargos mais específicos, que não podem ser ignorados: caçadora de monstros imaginários, especialista em febre às 2h da manhã, perita em manchas misteriosas, mecânica de brinquedos, técnica em Lego, operadora de máquina de lavar infinita, mestre Jedi da paciência, domadora de birras, tradutora de choros, especialista em encontrar objetos desaparecidos, supervisora de banho, fiscal de escovação dentária, coach motivacional, técnica esportiva, especialista em curativos e gerente de caos.

Importante: O horário de trabalho é de 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano inclusive em finais de semana, feriados, madrugadas, dias que você estará doente, ou tomando banho, ou durante as refeições e, principalmente, no exato momento em que você se sentar pela primeira vez no dia. Haverá horas extras todos os dias, todas as semanas, todos os meses e todos os anos. Para sempre. Sem férias e sem direito à aposentadoria.

Claro que o trabalho não é remunerado. Mas talvez você aceite como pagamento alguns desenhos tortos (que guardará por décadas), abraços apertados registrados em milhares de fotos por ano; bilhetinhos escritos “te amo”; beijos babados e aquele orgulho absurdo depois de chorar em uma apresentação escolar. Se, depois de ler tudo isso, você ainda sorrir, talvez tenha o perfil ideal para a vaga mais cansativa, maluca, barulhenta, emocionante e amorosa do universo. Feliz Dia das Mães!

Ayne Regina Gonçalves Salviano é jornalista e professora. Mestre em Comunicação e Semiótica com MBA em gestão educacional