16 de abril de 2026
ARTIGO

Celular: livre-se do vício

Por Ayne Salviano | especial para a Folha da Região
| Tempo de leitura: 3 min

Você notou que de uns tempos para cá pioraram as suas dores no pescoço, ombros e coluna? E, além disso, os punhos e os dedos das mãos estão mais rígidos e parecem inflamados? Notou que os olhos estão ressecados, a visão às vezes embaça e as dores de cabeça estão mais constantes? Pode ser o uso excessivo do celular. Ele também afeta o sono. A luz azul emitida pelas telas interfere na produção de melatonina, hormônio responsável por regular o sono. O resultado? Acordar cansado, sem concentração e com o sistema imunológico afetado.

No campo psicológico, o uso excessivo do celular está associado ao aumento da ansiedade e da irritabilidade porque o cérebro se acostuma a receber estímulos rápidos e recompensas constantes. Quando esses estímulos não estão presentes, surge uma sensação de vazio ou inquietação.

Outro efeito ruim são as comparações frequentes nas redes sociais que podem gerar baixa autoestima, sensação de inadequação e até sintomas depressivos. A necessidade de validação, por meio de curtidas e interações, reforça um ciclo de dependência emocional. Sem contar o isolamento social, que gera solidão e dificuldade de comunicação fora do ambiente digital.

Esses efeitos não surgem de forma isolada. Eles se combinam e se reforçam, criando um ciclo difícil de interromper. Difícil sim, mas não impossível. Estudos apontam que o uso constante do celular desorganiza o cérebro fazendo com que a pessoa recorra à tela automaticamente diante de qualquer desconforto, tédio ou curiosidade. Ou seja, o comportamento deixa de ser uma escolha consciente e passa a ser um hábito condicionado. Mas este hábito pode ser quebrado com mudanças simples.

A primeira dica pode parecer básica, mas tem grande impacto: antes de pegar o celular, diga em voz alta o motivo. Pode ser responder uma mensagem, buscar uma informação ou resolver algo específico. Quando o motivo é claro e relevante, o cérebro “acorda” para a ação. Com o tempo, esse pequeno exercício ajuda a transformar um hábito inconsciente em uma decisão intencional.

Outra estratégia é a pausa de 10 segundos. Sempre que surgir o impulso de pegar o celular, pare e espere esse tempo olhando para a tela apagada. Essa prática simples cria um espaço entre o impulso e a ação. Se você consegue esperar, demonstra que está no controle. Caso contrário, percebe que o comportamento está sendo guiado automaticamente. Muitas pessoas se surpreendem ao notar quantas vezes tentam acessar o celular sem necessidade real.

O afastamento físico do aparelho também faz grande diferença. Manter o celular fora da mão, longe da mesa ou guardado em um local menos acessível reduz significativamente a frequência de uso.

Outro ponto essencial é quebrar o hábito de usar o celular em momentos de transição. Pequenos intervalos do dia, como esperar um elevador, mudar de ambiente ou enfrentar segundos de tédio, costumam ser preenchidos automaticamente pela tela. Esses momentos, chamados de “armadilhas de transição”, reforçam o vício. Ao evitar o uso do celular nesses espaços, a mente volta a produzir pensamentos próprios, fortalecendo a autonomia mental e reduzindo a dependência.

Essas mudanças podem parecer pequenas, mas produzem resultados expressivos. O comportamento deixa de ser automático e volta a ser consciente. Portanto, abandonar o vício em celular não significa travar uma batalha contra o dispositivo, mas sim reprogramar os padrões que guiam o comportamento diário.

Ayne Regina Gonçalves Salviano é jornalista e professora, mestre em comunicação e semiótica com MBA em gestão educacional