14 de abril de 2026
ARTIGO

A donzela morta por seu próprio pai

Por Armando Alexandre dos Santos |
| Tempo de leitura: 4 min
Divulgação
Armando Alexandre dos Santos é Doutor na área de Filosofia e Letras

Geoffrey Chaucer, literato, filósofo e homem público inglês, nasceu em 1343 e faleceu em 1400. Viveu em uma época extremamente agitado; sobreviveu na infância à fase mais crítica da Peste Negra e sofreu pessoalmente em consequência da Guerra dos Cem anos, já que foi feito prisioneiro pelos franceses e só recuperou a liberdade após pagamento de um resgate por sua família.

Dotado de imensa cultura, haurida por leituras e estudos e completada por viagens em serviços diplomáticos, marcou profundamente a cultura e até mesmo a língua inglesa. Em seus escritos, tratou de modo digno de nota da inveja, vício capital que focalizou numa ótica religiosa, sem embargo de ser um leigo inteiramente inserido nos ambientes cortesãos, políticos e diplomáticos do seu tempo.

A obra de Chaucer é muito variada e volumosa. Concentremos nossa atenção em seu livro “Os contos de Canterbury”, (trad. de Paulo Vizioli. S. Paulo: T. A. Queiroz Ed., 1988) que não chegou a ser concluído, mas sem embargo disso é considerado uma das mais importantes produções da literatura inglesa medieval. O papel de Chaucer, na evolução do idioma inglês, por certo não é inferior ao que tiveram, dois séculos mais tarde, William Shakespeare (1564-1616) e o Rei Jaime I (1566-1625) com sua famosa tradução bíblica. Em nossos dias, Paul Johnson chega a considerar Chaucer “o poeta mais relevante da Idade Média, somente precedido por Dante”, e declara que a técnica desenvolvida por Chaucer em The Canterbury Tales, de mesclar de maneira muito viva os vários personagens com os personagens dos contos que cada um deles apresenta, constituiu uma inovação literária que teve, para o mundo das letras, a mesma importância que tiveram para as Artes o descobrimento das leis da perspectiva e do escorço, pelos florentinos (El Renacimiento, Buenos Aires: Mondadori, 2005, p. 75-77).

Chaucer imagina um grupo de peregrinos que se dirigia ao túmulo de São Thomas Becket, em Cantuária, e pelo caminho iam trocando relatos de fatos que haviam presenciado. No conjunto, esses contos - que apesar do nome não foram escritos todos em prosa, mas em parte em versos - constituem uma visão de conjunto da vida inglesa da época, focalizando pessoas, ambientes e situações muito diversificadas.

Um dos peregrinos, médico de profissão, relata a história de uma donzela da Roma antiga, belíssima e de grande virtude, cuja beleza foi cobiçada por um juiz corrupto e devasso, que armou uma cilada para se apoderar de sua pessoa. Um denunciante falso, conluiado com o juiz, alegou que a jovem não era filha de seu pai, como se supunha, mas na verdade era uma escrava que fora roubada de sua casa quando menina e lhe devia ser restituída. O juiz declarou que, enquanto não decidisse o mérito da causa, a jovem devia ser retirada da casa paterna e ficaria confiada à guarda dele, magistrado, até se esclarecer o assunto. Para não entregar a filha à lubricidade do mau magistrado, o pai da donzela preferiu tirar-lhe a vida antes que perdesse a honra.

Ao falar da boa reputação que tinha essa jovem, assim se exprime o médico: “A jovem, a respeito de quem estou falando, comportava-se de forma a dispensar governantes; era tão prudente e bondosa, que as moças de sua idade podiam ler em sua vida, como num livro, todas as boas ações e palavras que se esperam de uma donzela virtuosa. A fama de sua beleza e de sua bondade espalhara-se tanto por aquela terra, que os que amavam a virtude não podiam deixar de louvá-la; só não o fazia a Inveja, que, na descrição do grande Doutor Santo Agostinho, se entristece com o bem-estar dos outros e se regozija com sua desgraça e sua miséria.” (Op. cit., p. 171)

O episódio, registrado por Tito Lívio (Ab urbe condita, III. 48. 5), é referente a Ápio Cláudio Crasso, que no ano de 449 a.C. ficou violentamente obcecado pela beleza da plebeia Virgínia, filha do centurião Lúcio Virgínio e já prometida em casamento ao tribuno da plebe Lúcio Icílio. Crasso, levado pela paixão, utilizou seu poder de presidente do Decenvirato para apossar-se da jovem, cujo pai preferiu tirar-lhe a vida para impedir que fosse violentada pelo abusivo Crasso.

Armando Alexandre dos Santos é Doutor na área de Filosofia e Letras, membro da Academia Piracicabana de Letras e do IHGP.