Não gosta por quê? “Ah, porque sim”. Essa, a expressão esvaziada de quaisquer sentidos aparentes. Com ela exime-se a pessoa de expor seu pensamento sob mínima argumentação justificada em torno de uma questão sobre tema que precisa ser apreciado para se dirimir equívocos, exercendo crítica objetiva, alicerçada por fatos, documentações.
Acomoda-se com a opinião, a posição da “aldeia” a que se vincula. Além de cômodo, é lugar que permite ser dali sem mais nada senão endossar o que é prescrito e apregoado. Subjuga-se ao que a tribo rubrica como lema a ser seguido. Convicto ou não, aceite-se. Do contrário, fora! Está exposto ao apedrejamento.
Convenhamos, para não se perder o fio de justiça, essa é uma prática humana de “priscas eras”. Não é invenção da atual conjuntura social direcionada pelas redes sociais internéticas. A ação política dos povos parece desde sempre assim ter sido. O grande chefe era a “lei”. O rei era a lei. O imperador era a lei. Depois, os seguimentos de poderosos passaram a refinar as sutilezas às leis. Alegava-se que eram medidas advindas de decisões tomadas por “representações” de todos os seguimentos sociais.
Somente não se descuidavam de fazer prevalecer a hegemonia dos que se afinavam em interesses comuns e essenciais próprios aos grupos de poderosos. Assim agem os parlamentos da grande maioria das hoje denominadas “repúblicas democráticas”. A história da civilização brasileira é exemplar. Quando não o autocratismo, assim têm sido o Congresso brasileiro. O atual é um dos mais refinados exemplos. Vive-se a chaga de Congressos das “repúblicas capitalistas democráticas”, no Brasil diagnosticada e proclamada por Ulisses Guimarães: o atual Congresso é o pior que já houve, até a eleição do próximo.
Mas saiamos desse preâmbulo, que já se encorpou muito. Isto posto para justificar o assunto que se passa a abordar. Trata-se da execração pura e simples pelas redes sociais ante ao fato de que O Agente Secreto saiu do “Oscar” sem premiação alguma. O apedrejamento, com grande munição escatológica, tirante o ódio cego vociferado, é de uma empobrecedora percepção sociopolítica e cultural de dar medo e tristeza.
Como se sabe, a arte brasileira, seus artistas em grande medida; as universidades públicas de ensino, seus professores, em grande medida são estigmatizados pela extrema direita de esquerdistas, de comunistas, de atentados às famílias, à propriedade, à tradição, às religiões. Criam “narrativas” ardilosas e as milhificam pelas redes sociais. As inertes ignorâncias (ingenuidade, subserviência) e as perversidades recepcionam e, por sua vez, espalham.
Exemplinho nada banal: parente próximo de um conhecido não cessava de lhe enviar esses malefícios. Cansou. Pediu-lhe que parasse. Não parou. Perdeu a paciência e dirigiu-se a ele repreensivamente. A justificativa foi a de que, se não repassasse, poderia acontecer-lhe alguma coisa muito ruim.
A verdade irrefutável (que escamoteiam, deturpam com ações nefastas à evolução qualitativa de formas de educação geral para o crescimento civilizacional) é que as artes brasileiras cresceram, desvencilhando-se cada vez mais de subjugações dos países desenvolvidos. A música popular brasileira talvez tenha sido a primeira a ir sobrepondo essas dominações. Desde Carmen Miranda por lá fomentando-a com muita competência. Sinatra (bem mais do que ter dado uma canja a Garota de Ipanema, sob a direção do piano de Tom Jobim) reverenciou a Bossa Nova.
Hollywood fez vista grossa ao “Cinema Novo” – escanteando as inovações de Glauber Rocha, Nelson Pereira do Santos o quanto puderam. Mas o cinema brasileiro não desistiu, não se acomodou com “Palma de Ouro” (o que já não era pouco). Ante a Central do Brasil, direção (também dele!) de Walter Salles, atuação de Fernanda Montenegro e Matheus Nachtergaele, o Tio Sam e a Europa principiaram a ter de admitir a cinematografia brasileira no rol da consagração dos grandes filmes, cuja consumação é a indicação ao “Oscar”.
Passaram a fazê-lo por uma razão clara e objetiva, a grande qualidade dos filmes, de seus diretores e atores. Não foi uma concessão, não foi “uma canja”, que eles longe estão de fazer isso (O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada / Anda dizendo que o molho da baiana melhorou seu prato / Vai entrar no cuscuz, acarajé e abará / Na Casa Branca já dançou a batucada de ioiô, iaiá).
A passarela à passagem, ao desfile da arte brasileira, do cinema brasileiro, estava estendida. E veio Ainda estou aqui. Conquistou estatuetas. Veio O Agente Secreto, conquistou estatuetas. Nenhuma no “Oscar”? Ora, aí já se está sob avaliações de ordem várias. O grande mérito da competência é estar ali indicado para algumas categorias. A premiação é, sim, importante e desejada, mas não a exclusividade do propósito estabelecido. Afinal, a concorrência é com grandes filmes tão competentes quanto.
Por fim, cada filme é um filme. Embora haja um ponto temático comum entre eles, os dois filmes diferenciam-se quanto à temática de fundo. O com Fernanda Torres é o drama de Eunice Paiva na digna sustentação da família e demonstração explícita da verdadeira causa da morte do marido: assassinato. O com Wagner Moura é a perseguição implacável até o assassinato de um professor universitário.
O motivo e os verdadeiros “agentes” dos dois assassinatos são os mesmos. Todavia, primeiro é mais emotivo, sentimental. O segundo, as tramas de película policial. Todavia, comprovadamente competentes, atestaram as sumidades da cinematografia mundial. Aí para se compreender isso tudo é necessário se isentar do ódio do “porque sim”.
Tito Damazo é professor, doutor em Letras e poeta, membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e membro da AAL (Academia Araçatubense de Letras.