18 de março de 2026
ATENÇÃO BÁSICA

Brasil registra menor taxa de mortalidade infantil em 34 anos

Por Vitor Hugo Batista | da Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min
Reprodução/Lucas Sudatti/Prefeitura de Esteio
'Para continuar reduzindo as mortes, será necessário investir ainda mais na qualidade do pré-natal', diz diretora-executiva do Unicef.

O Brasil atingiu, em 2024, a menor taxa de mortalidade infantil dos últimos 34 anos. Em 1990, a cada 1.000 crianças nascidas, 25 morriam antes de completar 28 dias de vida. Em 2024, o número caiu para sete mortos para cada 1.000 nascidos vivos.

O mesmo aconteceu no grupo de crianças de 1 a 59 meses, ou seja, até cinco anos. Em 1990, 38 a cada 1.000 não chegavam ao quinto aniversário. Em 2024, a taxa caiu para 7 a cada 1.000.

Os dados fazem parte do relatório Níveis e Tendências na Mortalidade Infantil, produzido pelo Grupo Interagencial das Nações Unidas para Estimativas de Mortalidade Infantil (UN IGME), divulgados nesta terça-feira (17).

Apesar da queda, os dados mostram que o ritmo de redução dessas mortes perdeu força nos últimos anos.

Entre 2000 e 2009, a mortalidade de crianças de até cinco anos no Brasil caía, em média, 6,33% ao ano. Já entre 2010 e 2024, esse ritmo diminuiu para 1,92% ao ano.

A mesma tendência de desaceleração foi observada na América Latina, onde a redução passou de 4,48% para 2,79% ao ano, e no mundo, de 4,12% para 2,16% ao ano.

"Nenhuma criança deveria morrer de doenças que sabemos como prevenir. Mas vemos sinais preocupantes de que esse progresso está desacelerando e num momento em que estamos vendo cortes adicionais no orçamento global", diz Catherine Russell, diretora executiva do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância).

Para o pesquisador Cristiano Boccolini, co-coordenador do Observatório de Saúde na Infância da Fiocruz, a queda da taxa de mortalidade infantil está diretamente ligada à retomada de políticas públicas essenciais, como o aumento da cobertura vacinal e o fortalecimento da atenção básica.

Já a desaceleração do ritmo de queda da taxa está relacionada a uma espécie de "saturação" do modelo atual.

"O Brasil já avançou bastante com estratégias como a ampliação da atenção básica e a expansão de serviços de urgência e pronto atendimento, inclusive em regiões mais afastadas. Agora, para continuar reduzindo as mortes, será necessário investir ainda mais na qualidade do pré-natal e ampliar o número de profissionais de saúde", diz.

Hoje, segundo Boccolini, cerca de dois terços da população dependem exclusivamente do SUS (Sistema Único de Saúde), o que pressiona o sistema e evidencia a necessidade de expansão e qualificação dos serviços. O pesquisador afirma que desigualdades regionais seguem como um dos principais desafios.

"Apesar da redução das diferenças ao longo do tempo, Norte e Nordeste ainda apresentam indicadores piores, com dificuldades de acesso aos serviços de saúde e menor cobertura de atenção primária", afirma.

Fatores estruturais como pobreza, insegurança alimentar e dificuldades de deslocamento -especialmente na região amazônica- continuam impactando os indicadores. "Há populações que precisam viajar horas ou dias para conseguir atendimento, o que se reflete diretamente na mortalidade infantil", diz.

Em entrevista por telefone à reportagem durante agenda oficial na China, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, disse que o resultado "é uma vitória do SUS, um verdadeiro Oscar para a saúde brasileira".

O ministro afirma que o país precisa dar um novo salto na forma de enfrentar a mortalidade infantil, especialmente nos casos mais complexos e nas regiões mais vulneráveis.

"Quando você reduz a mortalidade infantil para níveis de um dígito, passa a enfrentar causas mais complexas, como doenças congênitas e complicações nos primeiros dias de vida", diz.

Padilha diz que é necessário fortalecer a atenção ao pré-natal e ao parto, pontos também apontados por Boccolini como centrais. Entre as medidas, segundo o ministro, sua pasta, tem investido na qualificação de maternidades de maior risco, com ampliação de leitos de UTI neonatal e melhor estrutura para atendimento de gestantes e recém-nascidos.

O ministro também cita a incorporação de novas tecnologias como estratégia para reduzir mortes evitáveis. Uma das principais apostas é a vacinação de gestantes contra o vírus sincicial respiratório, principal causa de bronquiolite em bebês, além do uso de anticorpos monoclonais em prematuros. Segundo Padilha, essas medidas devem ter impacto já nos próximos anos.

"São medidas que terão impacto direto na principal causa infecciosa de morte no primeiro ano de vida", diz.